Nos últimos dias 05 e 06, o palco principal do Theatro José de Alencar recebeu Divertissimant, peça composta de cinco momentos referenciados em obras coreografadas e dançadas, originalmente, entre as décadas de 40 e 70, pelo bailarino e professor de balé clássico Hugo Bianchi. Trata-se do primeiro ano do Projeto Memórias da Dança, encabeçado pela produtora Quitanda das Artes. Uma homenagem justa e uma benvinda iniciativa que, no entanto, tem pouco comprometimento reflexivo com a dança. Excede-se na celebração de um mestre de dança, deixando em segundo plano o olhar teórico e crítico sobre a produção e contexto artísticos, além falta de rigor científico ao tratar de remontagem e releitura de obras históricas.

Saudosismos à parte, o crucial é compreender que memória não é algo que se resgata, mas que se atualiza ao longo do tempo, que é irreversível. O químico Ilya Prigogine (Prêmio Nobel em 1977) defende que o homem não controla o tempo, mas que dele provém. Assim, memória e tempo são cúmplices da história e do fazer historiográfico. Na dança, a pesquisadora Fabiana Britto diagnosticou, em seu doutorado (2003), que boa parte dos livros de história da dança no Brasil não têm a dança como objeto de estudo, mas sim a trajetória cronológica de seus criadores. Motivo: reforçam uma noção de “hereditariedade estética” para forjar continuidades históricas que pouco qualificam os discursos sobre dança.

Sendo a dança contemporânea um lugar privilegiado para se perceber ou não mudanças, foram as três ditas reeleituras apresentadas por grupos locais que representam o ponto forte do projeto. Nelas, evidenciou-se a filiação à técnica clássica em Fortaleza, com ares modernosos. Junto a isso, ficou clara a fragilidade no processo criativo que, contrariando um ajustado entendimento de releitura artística, foram todas monitoradas por Hugo Bianchi. Em “Os Deserdados” (1971), o Centro de Experimentações em Movimento (CEM), dirigido pela bailarina e coreógrafa Silvia Moura, ficou muito preso à questão simbólica da miséria da seca, encenando muitos gestos de dor e sofrimento. Bem diferente do que o projeto anunciou como proposta de refletir sobre os possíveis desdobramentos críticos desse tema na atualidade.

Com a Companhia dos Pés Grandes, em “Um americano em Paris” (1953), o jovem coreógrafo Heber Stalin mostrou mais a idéia de remontagem. Foi bem fiel à obra original (também um musical de cinema com mesmo nome) do que com a possibilidade de reelaborar idéias e contextos, a partir da sua lógica off beat de sapatear. Já em “O Guarani” (1948), o bailarino e coreógrafo Carlos Antonio dos Santos, do grupo N Infinito, foi o único a se apresentar sozinho, trazendo uma boa perspectiva para releitura, com o conceito ancestral do Xamã indígena para abordar o personagem literário do escritor cearense José de Alencar. Porém, o uso das projeções em vídeo não criou uma eficiente ambiência artística para que Carlos demonstrasse a energia corporal de um guarani negro mestiço cearense mineiro brasileiro, que ele é capaz de dançar.

Bem mais próximo da rotina de Bianchi, tiveram os outros dois momentos da “homenagem”. Na abertura, foram remontados trechos de “A Valsa Proibida” (1965), coreografada por Janaína Barros, com corpo de baile formado por alunas da Academia de Ballet Hugo Bianchi. E fechando as duas noites, foi apresentado “Noturno” (1966) pelos quatro coreógrafos convidados, com uma real despretensão com que foi tratada a improvisação em dança, junto com o próprio Hugo em cena, vestindo uma capa branca esvoaçante que, ao final, cobriu ali seus pupilos contemporâneos.

O que faz vir à tona uma questão pertinente: será mesmo desse modo que vamos criar uma rede de interações e trocas informativas para uma possível nova geração de bailarinos e coreógrafos, ou melhor, de criadores em dança? Perceber (auto)criticamente as transformações, sem fazer vista grossa, é a única forma de permanecer, acreditemos.

 

Texto publicado no Vida & Arte, do jornal O POVO (CE), no dia 12 de fevereiro de 2009, com o título “Descompasso em dança”, título sugerido pela editoria deste caderno cultural.

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