Uma vez assumido o compromisso de se pesquisar artisticamente a dança, faz-se necessário ter foco, que é desenvolver hipóteses e metodologias de investigação. Tal posicionamento não é só estético, mas também político: alimenta o processo de criação, possibilita o amadurecimento do espetáculo e, principalmente, trata a dança como produção de conhecimento de altíssima complexidade sistêmica. Nesse contexto, Magno_pyrol, o corpo na loucura, solo de Graco Alves que encerra temporada hoje no Quinta com Dança deste mês, é um exemplo interessante para refletir sobre o contexto cearense da dança.

O trabalho iniciou-se como a grande zebra na seleção para o Programa Rumos Dança 2006/2007, do Itaú Cultural e, desde então, vem fazendo um percurso pouco habitual para os criadores locais de Fortaleza e interior do Estado. Teve apoio de bolsa de criação, o que lhe possibilitou alguma longevidade para sua proposta. Apresentou-se também em uma mostra nacional com artistas de outras cidades do País, igualmente selecionados como ele, e ainda em eventos de cunho psicanalítico, o que lhe deu rendeu bons contatos profissionais. No entanto, ainda está mais próximo de uma boa idéia que necessariamente de uma pesquisa artística, devido à falta de fôlego intelectual do referido programa e, possivelmente, ao encantamento da sua forma eficiente de exposição, vinda do grande poder de difusão do instituto que o promove.

Nesses mais de dois anos, o espetáculo tem momentos ricos que permaneceram. No drama da formiguinha com o pé preso na neve, Graco cria uma apatia inteligente de gestos no ato de contar a história pela lógica da repetição. A esquizofrenia, que traz a idéia de uma falta de sintonia com a realidade, está também presente na obra, mesmo bastante vinculada à representação cênica. Tal distúrbio configura-se como um elemento decisivo que amplia a força dramatúrgica da obra. Principalmente para entendermos que há sim nexos de sentido na aparente perda de contato com o mundo externo.

Porém, a montagem ainda é imprecisa no que almeja, de fato, problematizar. Nela prevalece uma abordagem terapêutica que agrada ao público, porém, é pouco vigorosa sobre o que pretende discutir, que é o corpo na loucura. Talvez por ainda se manter enraizado nas discussões de Michael Foucault, ao invés de partir desse autor para outras elaborações sobre a difícil transposição de estados físico e mental para o corpo que dança. Bom lembrar que no mundo de instabilidades em que vivemos, a loucura é mais que um sintoma: é um forte indício da nossa incapacidade em lidar com a natureza humana.

Há ainda as quedas-livres, que não chegam a ser uma releitura de um dos elementos característicos do Grupo Cena 11 (Porto Alegre – RS), companhia dirigida pelo coreógrafo Alejandro Ahmed, um dos curadores da última edição do Rumos Dança. Pelo menos não deveriam ser por conta do apuro técnico necessário na preparação corporal (quedas machucam e muito!). Ao que parece, a questão importante para Graco e que precisa ser melhor investigada artisticamente é a repetição de movimentos, condição recorrente nos pacientes com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), como o próprio criador já evidenciou em conversas e debates pós-apresentacões. Isso daria a ênfase no corpo, mais ajustada a sua proposta.

A saber, Magno_pyrol é um dos raros privilégios para a crítica especializada, desde sua pré-estréia, em fevereiro de 2007. Motivo: a possibilidade de um acompanhamento regular da obra, justamente para que as trocas de informação aconteçam e que seja possível qualificar, de algum modo, o discurso sobre dança no Ceará e no Brasil.

 

Joubert Arrais é jornalista, crítico de dança, artista independente e mestre em Dança pelo PPGDanca/UFBA, com atuação em projetos autorais e colaborativos. Participe mais desse diálogo no blog www.umjovemcriticodedancabrasileiro.blogspot.com

A versão impressa desse texto crítico foi publicado no caderno Vida & Arte, do jornal O POVO, em 26 de fevereiro de 2009.

 

SERVIÇO:
Magno_pyrol: o corpo na loucura. Espetáculo da Cia. Argumento com direção e coreografia de Graco Alves. Hoje, 26 de fevereiro, às 20 horas, no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultural. Ingressos: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Mais info: 3488. 8600.

Print Friendly