(Foto: Nilmar Lage/Edição Joubert Arrais)

O comportamento dos índios antropófagos causou rebuliço nos Modernistas do início do século 19, que o retrataram na Semana de Arte Moderna de 1922. Em O confete da Índia, de André Masseno (RJ), essa referência é assumida pelo artista como dispositivo para acionar a experiência corporal do “desbunde”, uma palavra que não tem nada de porra-louquice alienada., o corpo-desbunde representa o movimento de contracultura que mobilizou arte e vida nas décadas de 60 e 70 no Brasil.

Com duas apresentações pela 25ª edição do Festival de Teatro de Curitiba (ano 2016), hoje e amanhã, dias 25 e 26 de março, na Casa Hoffmann, na capital paranaense, o espetáculo carioca atualiza um Brasil de outrora que insiste no Brasil de agora, quando aciona em nós uma memória corporal de ditaduras, opressões, sobrevivências e resistências.

Por isso, é mais que um solo de dança e performance: é um acontecimento artístico que bagunça nossa percepção sobre uma história brasileira contemporânea. Basta lembramos o que foram as épocas recentes dos anos 60 e 70 em nosso país, que parecem se repetir nos recentes confrontos policiais contra as manifestações de rua, como o 29 de abril de 2015, aqui em Curitiba, onde professores e professoras foram desrespeitados e repudiados (muitos deles e delas tratados com crueldade) pela polícia do governo estadual. Como também foram as recentes manifestações de alunos e professores em São Paulo, na ocupação das escolas, diante dos desmandos arbitrários do governo estadual de lá.

O confete da Índia não trata diretamente desse assuntos, é bom deixar claro. Mas nos mobiliza a pensar as reviravoltas entre passado, presente e futuro. Como diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que os grandes fatos do mundo tendem a se repetir, primeiro como drama, depois como farsa. No solo, o sentimento é de pertencimento que dói no corpo de quem dança e de quem testemunha esses resíduos, fagulhas e nostalgias de uma memória roubada em detrimento de uma memória falsamente oficializada como nossa. A pergunta que ressoa disso durante o espetáculo é: o que há de drama e o que há de farsa na história recente?

Esse “confete” de André Masseno, sob a direção do mineiro Tuca Pinheiro, o desbunde abrasileirado se faz numa dança atrevida e acintosa, engenhada como performance política de um corpo xamânico, este que intermedia o profano e o sagrado, transitando pelos dois sem se ater a nenhum deles. É um corpo do entre, do interstício. De outro modo, é um corpo-desbunde-xamã-pop-popular-contracultural.

Na cena e no corpo, somos parte de um mergulho antropofágico enquanto acontecimento político. Feito uma torrente de afetos e afetações, cada escolha cênica é singular porque turva e desarma nossa percepção acostumada ao “esteticamente correto” e destrincha velhos hábitos colonizados, subvertendo-os, profanando-os, aproveitando-se bem deles, com prazer e cinismo. Tal empreitada dessexualiza certos discursos de gênero, pontua as mestiçagens culturais brasileiras como motor criativo e, por fim, abre valiosas frestas investigativas para outros movimentos de dança, a quem interessar.

É um corpo brasileiro carioca globalizado precário vibrátil impregnado, sem que precisemos temer os adjetivos. Eles nos mostram a potência e a ação de um artista de dança que busca desestabilizar certas noções cristalizadas do que vem a ser um corpo dito brasileiro e também o que vem a ser uma dança contemporânea dita brasileira.

Pois a brasilidade do espetáculo é acintosa sim, mas às avessas, ao contrário. Quero dizer, é assim, acintosamente falando, não para aborrecer ou desagradar mas faz isso, aborrece e desagrada, para provocar um bem, um pensamento outro, uma fricção na percepção. É provocante no bom sentido da palavra, mas sem aquele tônus pacificador que muitos esperam ser um ato violento para outros modos de estar no mundo. Perturba para deixar a gente inquieto naquilo que nem sempre nos apercebemos.

Em O confete da Índia,  os movimentos são de busca, expedição, glocalidade, mergulho, emboscada e levante. Uma busca como uma arqueologia anárquica. Uma expedição nesse Brasil colônia que ainda coexiste. Uma glocalidade que nasce da fusão entre global e local, juntos e ao mesmo tempo. Um mergulho nas águas poéticas de uma suposta cultura de massa brasileira e/ou abrasileira. Uma emboscada que se forja em nós mesmos a partir desse outro que desbunda, que se faz confete. E um levante, destes e daqueles que começa e começam em pequenas mudanças sorrateiras para ser, por fim, algo revolucionário.

É uma “crítica cínica”, trazendo para esta conversa o filósofo brasileiro Vladimir Safatle, que nos permite falar de uma artisticidade que se constrói na relação do espetáculo com aquilo que o engendra – o corpo do desbunde, do confete, da festa, do carnaval – e também no vínculo da performance com aquilo que afeta o público – o corpo do experimental, do transgressor, do contágio, do trânsito. Esta artisticidade é um tipo de metalinguagem de dança que opera na lógica de uma performance virtuosa de corpo e movimento.

Há nesse espetáculo uma dialética do trabalho solístico de dança. É que um solo de dança contemporânea, importante ressaltar, quase sempre nos coloca diante de um experimento autobiográfico, ou seja, o corpo que dança, sendo ele ou ela, nos faz pensar sobre essa proximidade de vida no fazer arte. Um corpo sozinho em cena, porém, não pode ser confundido com uma presença solitária. Pelo contrário, é nesse e com esse corpo em que converge todas as atenções que passamos a perceber que há outros que habitam e que esse corpo que se mostra solitário é, na verdade, um convocador de relações dele próprio para com o mundo no qual faz parte.

Tanto que, no solo de André Masseno, o que há é um corpo feito de muitos em um e que evidencia um diálogo de dissensos entre o que estamos acostumados a compreender como dança e, ainda, no que estamos adestrados a lidar como performance. Ele performa uma dança e, ao mesmo tempo, dança uma performance. Nesse diálogo inquietante, o corpo não está mais imune àquilo que poderia o enfraquecer. Pois “aquilo que pode nos matar também pode nos fortalecer” é um provérbio que diz muito quando assistimos ao espetáculo.

Nele há uma exibição escancarada de um corpo brasileiro colonizado que se coloniza no outro. O confete da Índia é, assim, um corpo carnavalizado que sabe que todo carnaval tem sem fim para outros carnavais. Um corpo musicalizado pela dança que performa um Brasil colonial dos anos 70 de agora. Um corpo que nos afronta, de um jeito anárquico e arqueológico, com as opressões da linearidade histórica de Brasis nordestinos nortistas sudestinos centro-oestinos. Faz do desbunde uma necessidade e uma urgência em tempos de negação e ridicularização desse outro que nos é estranho, mas cuja a estranheza é tão humana quanto a nossa e da qual fazemos parte e, nela, coexistimos.

Joubert Arrais é crítico de dança, artista-pesquisador e professor universitário.

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