Foto: Renato Mangolin/divulgação.
Edição: Joubert Arrais.

Em um trabalho de dança contemporânea, se logo, de início, identificamos a questão artística que move os(as) criadores(as), o desafio é como tal questão vai se desenrolar. No espetáculo Mordedores, das coreógrafas Marcela Levi (Rio de Janeiro/Brasil) & Lucía Russo (Argentina), isso acontece e o próprio título nos coloca a pensar nessa imediatez. A relação da ação “morder” e o assunto “violência” ficam evidentes e sugeridos, na apresentação do dia 23 de março, pelo Festival de Teatro de Curitiba de 2016, com uma segunda hoje, dia 24 de março, também na Casa Hoffmann.

Na vida cotidiana, uma metáfora opera muito mais do que figura de linguagem, infiltrada na performatividade do que falamos e do que fazemos, rotineiramente. Desde o final dos anos 1970, é o que defendem dois pesquisadores norte-americanos, o linguista George Lakoff e o filósofo Mark Johnson. Porém, ela ainda é bastante entendida e tratada como mera analogia, uma comparação escrita. Segundo eles, nós vivemos e convivemos com as metáforas e estas estão conosco, tornado-nos corpos-falantes em atuação no mundo.

Artisticamente, uma metáfora pode ser decisiva. E no caso da dança, que acontece no corpo e não fora dele, uma metáfora pode ser desestabilizadora. Isso porque uma analogia feita tende a evidenciar se é apenas uma comparação que direciona os corpos empenhados na questão ou se há, de fato, um engajamento corporal que (os) transforma (n)a metáfora em ação corporificada. Se a intenção se relaciona com a ação humana de corpos que mordem, é inevitável considerar esse movimento que pode vir a transformar jovens pessoas em corpos artistas mordedores.

Sobre essa questão, há uma curiosidade em torno da ação de morder e ser mordido, até mesmo, deixar-se morder. Aciona a lembrança da criança na fase da dentição, de uma boca sedenta que apenas amacia quando morde porque os dentes ainda estão nascendo. Nessa fase, aconselha-se dar para a criança um mordedor (acessório terapêutico), pois a função é aliviar essa tensão entre a vontade de morder e a ausência ou nascimento de dentes. Antes, ainda na amamentação, essa boca sem dentes está sedenta pelo leite materno e o movimento da boca é o da sucção e que prepara a boca/corpo da criança na força de poder/saber morder.

Ser um mordedor, assim, é da natureza animal, voraz na fome de destrinchar uma carne suculenta de sangue. Essa nossa ancestralidade, o de comer carne crua, deu ao aparelho mastigador (boca, dentes, mandíbulas) um papel importante no processo evolutivo de transformação do corpo humano moderno. Cozinhar a carne para ser comida acabou por facilitar essa mecânica (de)gustativa. Um mordedor é, nesse sentido, um mastigador, um corpo ativo pela lógica metonímica na qual a parte (a boca ou os dentes) constituiem um todo (o corpo humano) em suas partes (por exemplo, o aparelho digestivo).

Ter dentes para morder traz também uma conotação social importante, na sua força econômica. Num passado recente, um dente estragado era motivo para retirar todos os dentes e colocar uma dentadura. Assim, o mordedor natural dá lugar ao mordedor artificial, mesmo que esses adjetivos tenham uma relação de ambiguidade: o artificial que se naturaliza e o natural que se artificializa. Morder, que seria natural, pode ganhar status de uma ação artificial se uma boca, inicialmente, com dentes passa a ter uma mordida desdentada. Ou seja, morde sem morder, morde sem violência, morde amaciando o que morde, morde massageando aquilo que supostamente estaria violentando.

Uma “crítica desdentada”, como diz o filósofo Zigmunt Bauman, é a crítica de consumidor, esta que nada destrincha e apenas faz terapia naquilo que morde. Segundo Bauman, atualmente vivemos um mundo que nos predispõe à crítica, mas essa crítica que recebemos e que também acionamos é ‘desdentada’, porque se mostra incapaz de afetar a agenda estabelecida pelo capitalismo moderno.

O que ele quer dizer, numa leitura política, via analogia metafórica e corporal, é que vivemos num tempo em que a dita pós-modernidade (que ele define como líquida) é uma modernidade que colabora com o sistema capitalista que oprime mas na ilusão de que se trata de uma crítica dentada, com poder real de destrinchar. Achamos que estamos transformando e desestabilizando alguma questão, porém, estamos é reiterando a impossibilidade de qualquer mudança revolucionária, pois somos compelidos, na lógica neoliberal, a fazer parte do sistema como mordedores desdentados competentes em um virtuosismo sem obra de corpos movidos pelo desempenho de estar desempenhando.

O elenco do espetáculo Mordedores, na apresentação em Curitiba, mostra um esforço admirável e digno de elogios aos intérpretes da performance: Daniel Passi, Gabriela Cordovez, Ícaro Gaya, João Vitor Cavalcante, Lucía Russo, Tamires Costa e Tony Hewerton. Em suspenso, fica a questão: uma mordida que não morde evidencia uma violência pacificada ou apenas uma vontade sugerida de morder? Sobre isso, precisamos considerar que sempre vai haver o risco de não conseguirmos abarcar a questão que ambicionamos porque ela se encontra bastante fora de um experimento crítico dentado, capaz de alterar o que já está estabelecido como experiência vivida.

Ou então, necessitamos mesmo considerar, com a honestidade artística possível, a impossibilidade de nos deixarmos abarcar por aquilo que almejamos abarcar, artisticamente. Para que a via seja de mão(s) dupla(s).

 Joubert Arrais é artista-pesquisador, crítico de dança e professor universitário.

Apresentação no Rio de Janeiro (RJ). Foto: Renato Mangolin/divulgação.

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