Há exatos dois anos. Foi quando a companhia pernambucana (http://www.ciaetc.com.br/) esteve por aqui, com o espetáculo Sobre nossos corpos, pela Caravana Funarte. Eram três solos que discutiam o que é dançar na cidade de Recife, resultado de uma residência realizada em 2006 e promovida pelo Centro Apolo-Hermilo. De volta à capital cearense, os bailarinos-pesquisadores José W. Júnior, Marcelo Sena e Saulo Uchôa apresentam Corpo-Massa: Peles e Ossos, hoje (sábado, 02) e amanhã (domingo, 03), às 20 horas, no Teatro Sesc Iracema, encerrando a temporada de circulação que realizam desde novembro passado. Em discussão, o que vem ser um “dançar com os ossos”, no que diz respeito às articulações humanas como constituintes básicos e geradores do movimento do corpo. Para tanto, optaram por um formato “diferenciado”, o de uma exposição coreográfica, onde o público pode entrar e sair a qualquer momento.

Tudo isso ganhou força como possibilidade de pesquisa quando os três integrantes foram pré-selecionados para o programa Rumos Dança 2006/07, do Instituto Itaú Cultural, o que lhe rendeu convite para participar de uma semana de aulas, em março de 2007, em São Paulo, direcionada à dramaturgia do corpo. Fato que culminou na realização da pesquisa prática Peles e Ossos, entre janeiro e junho do ano passado, com apoio da Funarte (MinC), via do edital de dança Klauss Vianna. Novamente em itinerância, vem fortalecendo laços e melhorando o diálogo por onde têm viajado. Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais, Bahia e, por último, Ceará. Uma circulação somente viável pelo apoio do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).

Percebe-se, portanto, no percurso artístico recente da Cia. Etc, as relações cúmplices entre criação em dança e apoio público. Nota-se também a coerência com as etapas que todo processo artístico pressupõe (pelo menos, deveria), que é uma investigação como pesquisa, da decisão de resultar ou não em espetáculo, do amadurecimento da obra quando habita, circunstancialmente, outros contextos culturais. Um jeito de fazer dança que não se preocupa somente com o resultado final, mas em viabilizar e enriquecer o processo, o que dá bons anticorpos para o exercício árduo de fazer pesquisa em dança no Brasil. Não é por acaso, pois os anseios da companhia alternam-se entre a criação artística e pedagogia na área da dança.

Nessa montagem, orientada pelo fisioterapeuta e professor de dança Kiran, com direção artística do artista plástico Pedro Buarque, o principal desafio da companhia é dinamizar a interação com o público. Eles propõem ausências e presenças da luz para evidenciar um estudo anatômico e filosófico do corpo humano, com ênfases na articulação do esqueleto (ossos) e como isso pode mais claro cênica e corporalmente (corpos-massa). Eis algumas impressões críticas sobre as apresentações nos dias 08 e 09 de abril últimos, no Teatro Vila Velha, em Salvador. O ambiente cênico claustro e a trilha sonora maquinal aguçam a visão e a audição, por um lado, mas criam certa inércia (estado quase estático) no corpo de quem assiste, por outro lado. Possibilitam um olhar mais minucioso para a relação entre corpos que dançam e da luz em movimento; ao mesmo tempo, fazem com que as interações do público, de caráter interventivo (como esperam), diminuam ou nem aconteçam, contraditoriamente.

Tem a ver, de certo modo, com a escolha do formato “exposição” e sua eficiência estética no que se refere ao se definir como “coreográfica”. Por isso, é importante distinguir estes dois termos para uma melhor compreensão autocrítica. Na proposta da companhia, ser exposição parece se aproximar bastante do caráter demonstrativo, bem comum em eventos acadêmicos, de algo investigado no laboratório e depois relatado como resultante parcial ou já final. Já artisticamente, a obra mantém relação íntima e provocativa com as artes visuais, principalmente, por conta da natureza coreográfica a que propõem incorporar. Isso traz à tona uma discussão pertinente quando o termo coreografia ainda é tratado, simploriamente, como mero sinônimo de uma sequência de passos de dança, e não como um jeito específico do pensamento de dança se organizar, que parte do corpo que dança para outras formulações.

O risco talvez seja não estar atento àquilo que se anuncia a priori e sua equivalência no momento da apresentação. É ver e comprovar o que reverbera sinestésica e politicamente. Senão fica só no dizer frágil da novidade, de uma diferenciação de mercado, o que não é, ao meu ver, uma inquietação da arte (dança) dita contemporânea, logo, reflexiva, provocativa e questionadora.

Joubert Arrais é jornalista, crítico, artista e pesquisador-mestre de dança (PPG Danca/UFBA). Atualmente desenvolve a pesquisa Coreografias Nordestinas (Bolsa Funarte de Produção Crítica em Artes 2008-09/MinC), da qual a obra Corpo-Massa: Peles e Ossos, da Cia. Etc. (PE), faz parte como objeto de estudo.
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SERVIÇO

Corpo-Massa: Peles e Ossos, da Cia. Etc. Hoje (sábado, 02) e amanhã (domingo, 03), às 20 horas, no Teatro Sesc Iracema (R. Boris, 90 – Praia de Iracema, ao lado do Centro Dragão do Mar). Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).

 

Crítica de dança publicada no caderno Vida & Arte, do Jornal O POVO (CE), no dia 02 de maio de 2009.

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