Uma crítica “escrita” no e pelo corpo que dança. Em discussão, a midiatização da dança pela música no contexto nordestino-brasileiro, a partir do samba, do arrocha e do axé. Eis meu solo de dança Sambarroxé, um experimento bruto, que se apresento no próximo dia 15 de maio deste ano, no evento Performa 09 – Encontros de Investigação em Performance, iniciativa do Departamento de Comunicação e Arte, da Universidade de Aveiro (Portugal). Para esta viagem, a obra em questão contou com apoio do edital No. 1/2009 de Intercambio e Difusão Cultural do Ministério da Cultura do Brasil.

A idéia do solo surgiu durante em Salvador pelo convite para participar da pesquisa colaborativa Experimento Bruto, no início do segundo semestre de 2007, orientada pela colega pesquisadora Mara Guerrero (SP), com as também colegas mestrandas Angela Souza (CE), Lucía Naser (URU) e Thalita Teodoro (MG). A estréia aconteceu no Congresso do World Dance Aliance 2007, realizado em Salvador (BA), com outra apresentação no Painel Performático da Escola de Dança, no mesmo período.

Depois, com o caráter mais independente e já como se reconhecendo como pesquisa de dança, Fui selecionado com o Sambarroxé como artista-propositor para o evento Teorema 2008, promovido pelo Estúdio Nave (SP), do qual participei também como crítico-propositor. Em Fortaleza, fiz três apresentações, sendo as duas últimas realizadas em fevereiro deste ano e a outra, ano passado (out), todas no Projeto Terça Se Dança, do Sesc Ceará.

Além do Performa’09, agora em maio, já está agendada outra apresentação (contrapartida do apoio do edital do MinC) no III Interatividade e Conectividades, iniciativa do Grupo Dimenti (BA) e que acontece na primeira semana de junho próximo, na capital baiana. Neste evento, realizo também uma intervenção crítica como um dos primeiros desdobramentos da Pesquisa Coreografias Nordestinas, selecionada pelo Edital de Produção Crítica em Artes 2008/09, da Funarte (categoria Dança/NE), que tem um espetáculo do Grupo Dimenti como objeto de reflexão.

No evento Performa’09, integram a programação outros artistas-pesquisadores da capital cearense, que desenvolvem trabalhos em performance e artes visuais, e que fazem parte do Projeto Balbucio, iniciativa de extensão universitária vinculada ao curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), do qual sou colaborador de dança. São eles: Antonio Wellington de Oliveira Júnior (professor e coordenador), André Quintino Lopes, Tobias Sandino Gaede, João Vilnei de Oliveira Filho e Edmilson Forte Miranda Júnior, com trabalhos individuais e um em grupo. Ver programação completa no performa.web.ua.pt .

OUTRAS INFORMAÇÕES

O trabalho Sambarroxé, um experimento bruto consiste em um estudo de corporalidades, concebido a partir do procedimento de improvisação em dança Experimento Bruto, desenvolvido pela dançarina e pesquisadora Mara Guerrero (SP), com base na semiótica de Charles Pierce (“fato bruto”). Nesse estudo teórico-prático, definido como solo demonstrativo, com viés performático, três manifestações culturais brasileiras de massa – o samba, o arrocha e o axé – foram escolhidas sob o critério de serem danças e músicas massificadas que exploram a sensualidade dos gestos e erotização dos corpos, mesmo não sendo estas as questões principais da investigação.

Para tanto, utilizamos um repertório individual de experiências in loco na cidade de Salvador, capital do Estado da Bahia, como também com os media televisivo. Isso possibilitou o deslocamento não-habitual de padrões de movimento em quatro partes do corpo (cabeça, pélvis, braços e pés) para se testar como esses padrões podem se reorganizar e serem re-elaborados. Por conta disso, este experimento dialoga ainda com o conceito de meme (memética), do evolucionista Richard Dawkins, que trata a informação cultural como análoga ao que acontece com o gene (genética), no que diz respeito à adaptabilidade humana. Justamente para evidenciar, cênica e artisticamente, a relação histórica, evolutiva, cultural e midiática entre dança e música.

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