Entre conquistas e frustrações, o setor da dança no Ceará encerra o ano de 2010 com boas perspectivas. Destaque para ações no Interior do Estado

Discorrer sobre o que aconteceu no ambiente da dança do Ceará em 2010 necessita de alguns cuidados, antes de qualquer atrevimento analítico, se a intenção é criar inteligibilidade sem destruir a diversidade, ou seja, compreender nossa realidade para ser possível alguma transformação. Inspiro-me no pensamento transgressor do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, de fazer visível o existente como desafio político para nós da Dança, de um intensificar o presente, indo contra o desperdício da experiência, e um retrair o futuro, diminuindo as expectativas.

O fato é que a dança cearense complexifica-se a cada ano. 2010 não foi diferente. Muitos comemoram o bom ano onde muita coisa aconteceu, muita mesmo. Outros tantos, porém, estão ressabiados, por exemplo, com a transição do governo do estado, no que diz respeito aos planos de ação do novo secretário de cultura, Francisco Pinheiro (“Prof. Pinheiro”). Visto que muita coisa deixou de acontecer, muita mesmo, por conta de um diálogo ineficiente com a área da dança por parte da antiga secretaria de cultura do estado, gerida, até então, pelo professor Auto Filho, desgastando, inclusive, nosso movimento político, através do Fórum de Dança do Ceará, que tanto trabalhou para informá-la sobre suas demandas.

Em âmbito nacional, temos o Plano Nacional da Dança já aprovado, dentro do Plano Nacional da Cultura, amplamente discutido pelas câmaras setoriais. Trata-se de um documento valioso que, não obrigatório para ser seguido, é, de certo, altamente recomendado para outras diretrizes, como apoio à memória e registro, e orçamento distinto para a dança nas chamadas artes cênicas.

Noutro movimento ante esse descaso público estadual, tivemos a sensível atuação de Isabel Botelho, à frente da coordenação de dança da Secultfor, com a retomada do Edital das Artes, nas categorias Manutenção de Grupo e Programa Quarta Em Movimento. O bom acompanhamento no repasse de verbas dos projetos contemplados em edições anteriores deste edital foi outro ponto positivo, ante a dificuldade de gestão financeira por parte da atual gestão da Prefeitura de Fortaleza.

No entanto, não há como desconsiderar as expectativas frustradas com as baixas de ações educativas de base, como o Projeto Dançando na Escola, amplamente divulgado na imprensa e que sofreu de inanição nas escolas municipais da Capital; e a Especialização Dança & Educação, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), já aprovada, mas adiada e sem previsão de início.

Contrariando uma impressão superficial de que nada aconteceu, artisticamente, no ano de 2010, podemos perceber o intenso movimento da dança em contextos cênicos de produção artística, o que nos coloca a questão cotidiana: que dança nos é própria na chamada dança cearense nordestina brasileira. E adianto, não foram poucos os acontecimentos. Tivemos dois processos de pesquisa coreográfica apresentados na Mostra Rumos Dança 2009/10, do Instituto Itaú Cultural, no mês de março, em São Paulo: o de Andréa Sales, com “Casa”; e o de Andrea Bardawil & Graça Martins, “Graça”.

Destaques

Paralelo a isso, Sales estreou o vídeodança documental “A carne não é fraca”, em agosto, na Vila das Artes; e Bardawil realizou o encontro presencial “Tecido Afetivo – Por uma dramaturgia do encontro”, de 7 a 11 de junho, em Flecheiras, com artistas e pesquisadores do Ceará e do Rio de Janeiro. Ambos tiveram apoio da Funarte, através do Prêmio Klauss Vianna de Dança 2009, junto com “Sim, Não, Talvez”, uma docdança da Artelaria Produções, dirigida pelo bailarino e ator Paulo José, com texto do dramaturgo Ricardo Guilherme, que realizou excelente temporada em dezembro último, no Alpendre.

Outro destaque foi a produção de final da segunda turma do Curso Técnico em Dança (IAAC/Senac/Secult), que reverberou local e nacionalmente, com as montagens “Ma vie”, de Aspásia Mariana, e “O pensamento se faz na boca”, de Luis Otávio, ambos presentes na itinerância do Circuladança, pela Bienal de Par em Par, junto com outros grupos e artistas cearenses pelas regiões do Vale do Curu, Sertão Central e Cariri. E ainda, o espetáculo “Cavalos”, de Andréia Pires e Daniel Pizamiglio (em parceria com Leonardo Mouramateus), único trabalho do Ceará convidado à participar do evento carioca Panorama Festival 2010.

Somando forças aos eventos na área, a tão necessária Mostra de Solos e Duos fez-se pertinente ao mobilizar a criação experimental e a relação da dança com os diversos públicos, com articulação bailarina e coreógrafa Silvia Moura (CEM), em parceria com Artelaria Produções. E ainda, festejemos a seleção merecida da Cia Dita para o Palco Giratório 2011. Dirigida pelo bailarino e coreógrafo Fauller, a companhia é a segunda do Ceará a realizar itinerância nacional pelo projeto promovido pelo Sesc Nacional, que inicia em abril próximo. A primeira foi a Cia Vatá, dirigida por Valéria Pinheiro.

Por todo o Ceará

No interior do Estado, a expansão do ambiente da dança pode ser observada em termos de apoios e ações de continuidade. A Associação Cariri e a Alisson Amâncio Companhia de Dança foram premiados pela Funarte em vários editais, como Klauss Vianna, Apoio a Eventos, Residência Artística em Artes Cênicas (em parceira com a Ana Vitoria Companhia de Dança) e Edital das Artes da Secult-Ce, este com várias candidaturas individuais. O que pressupõe, pensemos, muito trabalho e reverberação pela região do Cariri cearense, que é vasta.

No caso de Itapipoca, continua a atuação da Cia Balé Baião pela região do Vale do Curu, com destaque para a participação no II Encontro Terceira Margem / Bienal de Par em Par, com a intervenção urbana “Lamentos e Gozos da Imperatriz de Itapipoca”, e a realização da quinta edição da Mostra Performática Intenções, evento que possibilita que os artistas locais e da região troquem experiências e experimentações em dança. Também na região do norte do estado, especificamente, o litoral oeste, Paracuru afirma-se com a Escola de Dança de Paracuru, em especial, com o início das atividades como parte do Pontão de Cultura Terceira Margem, junto com a Cia. Vidança e a Edisca, em parceria com a bienal cearense e patrocínio da Petrobrás, através do MinC.

Nesse movimento, no qual se engendra também a graduação em dança pelo Instituto de Cultura e Arte – ICA/UFC, podemos iniciar o novo ano na perspectiva de corpos dançantes mais implicados, artística, política e socialmente, no mundo que dele fazem parte.

 

Este artigo crítico foi publicado no Caderno 3, no jornal Diário do Nordeste, e é uma versão impressa do texto “O que queremos para a dança em 2011?”, deste blog.

Print Friendly