Cisne Negro quebra o estereótipo das bailarinas de balé clássico, vistas como delicadas e pueris. A realidade opressiva das competições é o outro lado desnudado pelo filme

Um trecho da música “A ciranda da bailarina”, de Chico Buarque e Edu Lobo, diz assim: “Todo mundo tem um primeiro namorado / Só a bailarina que não tem / Sujo atrás da orelha / Bigode de groselha / Calcinha um pouco velha / Ela não tem”. Essa imagem mitificada da menina bailarina é até engraçada e habita muitos imaginários, mas logo se mostra não tão positiva e “Cisne Negro” toca bem no tema. Polêmica, instigante e, por vezes, exagerada, a obra de Darren Aronofsky evidencia a pouco conhecida história do Lago dos Cisnes, ao mesmo tempo, mostra a rotina disciplinada de quem dança balé clássico como profissão. Mas tanto o filme como a peça estão longe da ser mera contemplação.

A busca pela perfeição é algo inerente ao ser humano, sabemos. Como também a ambiguidade da natureza humana, temos que admitir. E antes de qualquer diálogo, que fique claro que não é algo restrito ao universo da bailarina, especificamente, do balé clássico profissional. Paradoxalmente, notícias sobre alguém – homem ou mulher, menino ou menina – que foi selecionado para uma grande companhia, inclusive aqui na imprensa do nordeste brasileiro, deslumbram muitos que querem uma carreira nacional (e até internacional). Reforçam a técnica clássica como linguagem universal da dança ou pré-requisito obrigatório para dançar profissionalmente, lembrando ainda da realidade opressora dos festivais competitivos e das companhias profissionais.

Coaduno, mas pondero. O grande sucesso de “Cisne Negro” desfaz esse senso comum, mas corre um risco considerável ao sair de um extremo emblemático e ir para outro caricatural. Eis a tensão que instaura. Não tanto negativa, pois consegue realizar um envolvente filme sobre dança, caracterizado por um drama psicológico que vem atiçando as apostas para as mais cobiçadas estatuetas do Oscar – Filme, Direção e Atriz – e agradando as pessoas da dança. Até aquelas que rejeitam ou ignoram, com justa causa, o balé. Certamente um dos grandes motivos da empatia está na peça original Lago dos Cisnes, que contraria a banalidade dos contos de fadas dançados ao falar do amor sexual e mortífero de um príncipe e um cisne.

Pouco se conhece a história do Lago dos Cisnes. Tem origem numa estreia fracassada, em 1877, coreografada por Julius Reisinger, no Ballet Bolshoi, mas com montagem incompleta. O músico Tchaikovsky morreu sem acabar a partitura final. Sabe-se pouco também que uma única bailarina precisa viver/dançar pulsões femininas opostas. Nesse balé, a solista é desafiada a dançar bem tanto o doce Cisne Branco/Odete quanto o sensual Cisne Negro/Odile. A pioneira nesse papel duplo foi Pierina Legnani, em 1895, na primeira versão completa do Lago, criada por Lev Ivanov e Marius Petipa em quatro atos, em São Petersburgo, para a companhia que atualmente é conhecida como Kirov Ballet.

A contemporaneidade da dança dos cisnes está justamente nesse desafio duplo no que diz respeito à liberdade de interpretação. Aronofsky faz do lado negro do cisne o fio condutor de uma narrativa de suspense incrível, onde é crucial a figura do intérprete. O extremo rigor e a exigente disciplina dos ensaios, em contraste com a imagem etérea da bailarina, denunciam a dureza do treinamento técnico e da preparação corporal de quem decide e insiste (não por muito tempo) dançar balé no palco e fora dele. Até mesmo para Natalie Portman que, para viver a frágil e perfeccionista bailarina Nina, teve que voltar a fazer aulas, um ano antes das primeiras filmagens.

Mesmo com alguns méritos, “Cisne Negro” trata-se de um filme sobre dança. E não um filme de dança. Um detalhe importantíssimo que muda muito o modo de se relacionar com o que vemos na grande tela. A compreensão da obra fica ajustada àquilo que pretende ser: ter a dança como assunto para falar de outra coisa. O filme Merece destaque porque avança no cruzamento de linguagens, quando a história do cinema nos diz que a dança é mera desculpa para um romance meloso e/ou cenografia. As imagens de movimento tratam a dança com extrema sensibilidade, e não tanto como pano de fundo.

Na contramão, essa mesma história traz filmes relevantes e que ainda permeiam o imaginário de muita gente, como os mais conhecidos “Flashdance” (1983) e “Billy Eliot” (2000); e outros nem tanto, como “The Red Shoes” (1948), “The Turning Point” (1977) e “White Nights” (1985), estes dois últimos com o bailarino russo Mikhail Baryshnikov.

Montagens Contemporâneas

Mas dialogar com os clássicos requer rigor e ousadia. O Lago dos Cisnes é um balé de ação (diga-se, com mais ênfase na expressividade) que abre margens para outras interpretações, por conta da abertura que a dita partitura tem em sua história. Não só o diretor norte-americano tira bom proveito disso. Antes dele, coreógrafos contemporâneos da Europa já o fizeram, como o sueco Mats Ek, o britânico Matthew Bourne e o alemão Raimund Hoghe.

Na versão de Mats Ek, de 1987, mostra uma revolta masculina sobre as mulheres e se configura como uma viagem pessoal do coreógrafo para falar da relação obsessiva com a mãe, beirando a misoginia. Já a coreografia de Matthew Bourne, de 1995, é a que vemos no final do filme “Billy Elliot” e uma das mais conhecidas pela radicalidade e erotismo dos corpos, quando enfatiza a pulsão selvagem e sexual do homem, com todo o elenco composto apenas de bailarinos, para tocar abertamente na dimensão sexual na vida de Tchaikovsky.

Uma das mais recentes é de 2007, de Raimund Hoghe, também ex-dramaturgo da coreógrafa alemã Pina Bausch (falecida em 2009). A montagem questiona o ideal de beleza quando o próprio corpo de Hoghe, corcunda e rejeitado, dança com uma antiga bailarina clássica e dois jovens bailarinos. Ele esteve em novembro último no Brasil com outros clássicos revisitados, como Bolero de Ravel, de Maurice Ravel, e L´a prés midi d ´un Faune, de Vaslav Nijinsky, no evento carioca Festival Panorama de Dança 2010.

 

Texto publicado originalmente no Caderno 3, do jornal Diário do Nordeste, em 13/02/2011, com o título “O outro lado do passo”.

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