Um constrangimento geral diante de uma quase recusa sistemática no relacionar-se com a dança de um modo respeitoso. Este sentimento é nítido já algum tempo, mas pouco percebido por quem tem a responsabilidade social de criar condições de existência mais adequadas à continuidade produtiva das artes no Ceará. A Secretária de Cultura do Estado está diretamente ligada a essa sensação de, no mínimo, desconforto da classe de dança que tanto tem buscado diálogo, o que soa como um boicote, um descado. Será?

Vejamos. Falta de diálogo não procede. Em 2007, logo que o secretário Auto Filho assumiu, foi entregue uma carta onde havia prioridades bem definidas para a área da dança. No mesmo ano, no Dia Mundial da Dança de 2007 (29 de abril), os artistas de dança participaram de um atoprotesto em frente ao Palácio da Abolição, então sede da Secult, para manifestar sua indignação com a extinção do cargo de coordenador de dança do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Nas comemorações do dia Mundial da Dança do ano passado, o Fórum de Dança redigiu uma carta aberta elencando as políticas públicas em Fortaleza, Ceará e Brasil, de modo a gerar comparações entre valores e ações; e, assim, servir de referência para a desburocratização na prestação de contas e no aumento na verba para a dança.

Analisemos agora. O VI Edital de Incentivo às Artes, promovido pela referida secretária, foi lançado com uma disparidade enorme entre as linguagens ditas cênicas, uma diferença de quase 70% para uma única área (teatro) no montante, em reais, de um pouco mais de um milhão e meio, sob o argumento de que a dança, por exemplo, já recebe aporte de outras fontes. Ainda hoje, os R$ 296 mil do referido edital de incentivo da Secult não superam os R$ 330 mil do Edital das Artes da Prefeitura de Fortaleza, com recursos apenas para a capital.

Diante do baixo valor destinado à dança e também ao circo (R$ 200 mil), há o alto valor dado ao audiovisual (cinema e vídeo), com cerca de R$ 3 milhões. Além disso, retirou a categoria “Circulação de espetáculos”, também para o teatro e circo, o que prejudica a difusão artística e educativa das obras, estes, por exemplo, já prejudicados: muitos artistas aguardam penosamente o repasse de verba da edição passada (2008).

Nesta proposta de análise coletiva, lembremos também que se trata de dinheiro público, logo, os critérios de distribuição têm que estar claros e condizentes com as diretrizes de cada área e as relações entre elas. Ou seja, por que, então, os valores tão diferenciados? Se a Política do Livro, Leitura e Biblioteca é uma prioridade da atual gestão da Secult, que ação pública é pensada para a aquisição e incentivo à leitura de livros das outras linguagens artísticas, como a dança?

Retomando a reflexão, em julho último, o Festival LitoralOeste quase não aconteceu por conta de um impasse burocrático da Secult com a Fundação Nacional das Artes (Funarte), e se o evento aconteceu, foi de modo emergencial. Ainda, a VI Bienal Internacional de Dança do Ceará se aproxima e já é possível vislumbrar alguns poréns, como o apoio à sua realização na África (Cabo Verde). E mais, o pagamento dos professores do curso Técnico em Dança, já na segunda turma, continua atrasado e ainda sem previsão para o pagamento.

Diante do exposto, que não se basta aqui, como não compreender tudo isso como uma espécie de boicote, daqueles que minam, silenciosamente, muitos dos ganhos tão arduamente conquistados ao longo dos últimos dez anos em nosso estado? Ou, como diz uma das questões apresentadas pela curadoria da bienal cearense deste ano: “De que modos colaboram, criam, circulam, sobrevivem criadores e intérpretes da dança hoje?” E complemento: que condições lhes são dadas ou tiradas? Como defende Helena Katz no texto “Dança no Brasil, pode?” (2006), devemos transformar os tabus da dança em totens, ou seja, começar a acreditar, antropofagicamente, naquilo que é dito como inquestionável, justamente por estar posto e difundido como um senso comum que empedra.

A indisponibilidade para o diálogo de base causa ineficiência orçamentária e atraso no repasse de verba pública, em termos de valores, adequação às necessidades locais e, principalmente, excesso de rotinas burocráticas pouco flexíveis. A própria nomeação da dança nas artes cênicas assumida secretaria de cultura do Estado mostra-se ineficiente, sendo urgentemente necessário atualizar os porquês dessa nomeclatura, ou seja, se ainda faz algum sentido tratar dança, institucionalmente, como artes cênicas quando não há, na prática, o entendimento de sua especificidade como linguagem e conhecimento.

A Funarte, ligado ao Ministério da Cultura do Governo Federal, que tem o setor de artes cênicas, é um bom exemplo desse estar juntos de um modo melhor ajustado à lógica de existência de cada uma das linguagem que fazem parte desse contexto maior das Artes. Logo, deveria ser uma referência obrigatória para nortear o referido edital da secretaria de cultura do nosso estado, por conta de estarem em instâncias cúmplices.

A disparidade de incentivo entre as três ditas artes cênicas, visível no edital da Secult/CE, semeia a idéia de competição mercadológica dentro de uma política pública. Ou seja, ganha mais quem conseguir gritar mais e “rezar” para ser ouvido? Tal realidade impossibilita uma melhor cumplicidade entre teatro, dança e circo na cena e experiência locais, junto também com a literatura, música e artes visuais.

É isso, por enquanto. Pois hoje já não é mais possível aceitar o que outrora era quase inimaginável. A dança existe e muito, mesmo com tentativas de colocá-la no ostracismo de uma existência inexistente, em termos de um apoio público que pratica a exclusão pela inclusão. Um grito indignado que reverbere de modo cúmplice para as outras artes bem ou mal incentivadas. Que, como disse bem Edgar Morin, exercitemos o distinguir para unir para estarmos mais conscientes do que somos e, por conseguinte, do que podemos ser/fazer juntos.

 

Este texto teve a colaboração das discussões que estão se elaborando no âmbito do Fórum de Dança do Ceará.

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