Durante as duas semanas que passaram, as últimas do Programa FIA do qual faço parte desde outubro de 2009, estivemos envolvidos com a discussão e as possibilidades de configuração sobre o que vem a ser uma comunicação, ou o que vem a ser comunicar algo.

O que me levou a fazer dois momentos individuais e um em grupo: “Nem sempre consigo” (uma espécie de conferência performativa), “Virar bicho” (uma idéia se transformando em possibilidade de pesquisa prática) e dois dias de rota coletiva (ações performativas a percorrer ruas e travessas do bairro lisboeta da Mouraria).

O interessante dessas circunstâncias foi perceber que comunicar tem a ver com partilhar algo e também nos questionarmos sobre como esse algo quer/deseja ser partilhado. Logo, falar demais não necessariamente quer dizer comunicar, é outro movimento.

Planejei algumas coisas na intenção de criar um mapa de possibilidades: gravei alguns comentários dos labororatórios da formação no gravador de mão que me acompanha desde a minha primeira vinda à Portugal (Festival Alkantara, Lisboa, 2008); gravei nele também um trecho de um livro (O Mundo Alucinado, de Reinaldo Arenas) que ganhei de um recente amigo português com quem divido apartamento (Zé Luis, de Famalicão, mas que vive em Lisboa); coloquei-me o desafio de performar (no sentido de performatividade, que tem a ver com linguagem e não apenas com performance); acordei cedo e passei o início da manhã ouvindo a música “A Palo Seco”, de Belchior, e que acabei por cantar no início desse meu momento dito performativo; decidi novamente “virar bicho” para perceber a selvageria que se engendra em mim desde o encontro mútuo com uma pedra que aconteceu em Vila Velha de Rodão, na residência artística no CENTA e também no Espaço Experimental do dia 25 de abril; o polêmico texto “A Dança Contemporânea”, do jornalista carioca Artur Xexéu, como provocação crítica para o momento de feedback; e outros materiais, etc etc e tal.

No entanto, deixe-me permeável para, a partir de mim e do outro, criar um contexto de ação, logo, um contexto para uma comunicação que comunique, que se relacione e que considere também a incomunicabilidade: corpo como mídia primária, movimento como motor da vida, pensamento como ação (e não como refúgio), dança como pensamento do corpo, crítica como um fator evolutivo da dança …

Assim, sinto mais forte em mim que preciso/precisamos me/nos implicar naquilo que faço/fazemos.

Foooogo, pá! Criação artística é trabalhar com aquilo com que nos relacionamos, nossas histórias de vida em movimento com o mundo; que antes da forma vem o movimento; que precisamos jardinar diariamente nossas idéias para elas se transformarem em algo que nos faça seres humanos melhores; que as coisas não são sobre as coisas; que precisamos ter atenção ao contexto do contexto, sem recuar; …

E, principalmente, que é no DANÇAR-INVESTIGANDO e no INVESTIGAR-DANÇANDO – disse e me ensinou Gladis Tridapalli (Curitiba/PR), e que vivenciei tão intensamente no c.e.m – que podemos criar uma autonomia artística eficiente que nos permita prosseguirmos de um jeito mais humano.

Isso tudo – e mais o que está nas frestas e dobras das entrelinhas – diz respeito ao movimento do corpo, que ora se organiza como dança, ora se organiza como escrita crítica, quando considero o meu percurso.

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