Foi publicada recentemente, aqui em Lisboa (17/03/2010), uma matéria no caderno cultural Ípsílon, do Jornal Público que me ajudou a conhecer um pouco o contexto artístico da capital portuguesa. Mas foi o título que me chamou-me atenção pelo título para entender a abordagem jornalística presente no conteúdo, com aspectos positivos e outros não tanto.

“Os portugueses já têm corpo e os criadores encontraram-no” faz-me pensar como o corpo é ainda tido como instrumento para algo ou recipiente onde tudo pode-se colocar nele ou tirar dele. Ao mesmo tempo, importante atentar para o fato desse entendimento ainda ser um lugar comum quer seja no jornalismo cultural, quer seja no fazer artístico.

O que vale nossa reflexão sobre o conteúdo da matéria, um estar ciente sobre o que pensam os chamados artistas performativos – dança, música, teatro, ópera, artes visuais etc, terminologia mais habitual no contexto português. (No Brasil, o termo padrão é artes cênicas, isso para teatro, dança, performance e circo, no papel, porque, na prática, artes cênicas é geralmente sinônimo de teatro.)

No conteúdo, na íntegra no link logo abaixo, é possível ter uma nocão geral desse “ter um corpo”, como também perceber que só são considerados artistas que “têm um corpo” os que têm certa consciência do corpo na criação, aqueles que trabalham com questões de gênero e homoerotismo, a seguir linhas de pensamento como a teoria Queer ou que tem a sexualidade como foco investigativo.

O que é bem válido, quando falar de sexo é um grande tabu, mas não se limita a isso. O corpo humano é de uma complexidade imensa e são muitas as perspectivas de trabalhá-lo como tema, que não é apenas a questão comportamental a partir do gênero e das sexualidades, sinto. A morte também é um tema pertinente para se repensar o estatuto do corpo em nosso tempo. Nesse sentido, a matéria poderia ter expandido mais a discussão, mas, ao que parece, preferiu uma abordagem mais generalista.

No entanto, o mote para a matéria, apesar dos poréns do título e da abordagem generalista, é estrategicamente inteligente e mostra-se, então, mais coerente com o que anuncia, passando por artístas e pesquisadores que, felizmente, deram boas contribuições. Explico: a editoria do caderno cultural escolheu como pretexto para a matéria o fato de, há quase vinte anos, o sociólogo e crítico de arte português Alexandre Melo ter escrito que “os portugueses não têm corpo”, ou seja, que os portugueses “não reflectiam” sobre o corpo e sobre a sexualidade. Logo, percebe-se melhor o foco, como também outro aspecto emerge, o papel da crítica de arte como documento vivo.

Um texto jornalístico (reportagem) que, antes de lido, merece algumas provocações para aguçar o olhar, deixá-lo menos inocente:

O corpo de Portugal mudou?
Um corpo omisso? Já encontrou-no?
O corpo é o espaço onde tudo se altera?
Tenho um corpo ou sou um corpo?
Se tenho, que corpo é esse?
Se sou, que corpo é esse?
O corpo é instrumento?

 

Leia a matéria na integra: Os portugueses já têm corpo e os criadores encontraram-no

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