O primeiro dia de discussões do encontro, na última sexta-feira, foi sobre a performance Banquete, de Patrícia Portela (Portugal), sobre a qual discorro provocativamente.

Numa apresentação especial, tida como “ensaio aberto” ou “pré-estréia”, Banquete é uma performance que se define como um projeto artístico transdisciplinar que trata da problemática da experimentação com seres humanos para pesquisas científicas. Partindo disso, tem-se o real e o não-real organizam-se, performática (ação cênica) e performativamente (fazer-dizer), como um ritual gastronômico de ficção científica. De onde surgem algumas inquietações: quais os limites de um experimento com seres humanos? Que clareza deve ter tais limites quando se tem em perspectiva as relações bioéticas? O que pode ou não ser admitido, o que pode ou não ser feito? Somos cobaias ou somos cúmplices desse ritual? O que comer, o que não comer e por que comer?

Experimento remete à idéia de cobaia, “rato de laboratório”. O estranhamento causado a cada prato servido, a cada nova situação gastronômica. Pois, o que parece alimento é, na verdade, um procedimento de testes. Pessoas sujeitadas as mesmas condições acabam por desenvolver padrões de comportamento comuns e diferenciados. Ambos são importantes quando tudo pode ser um dado revelador. Não se trata de punição, como em alguns momentos ocorreu, quando o numero de alguém foi anotado (ao entrarmos, éramos numerados), como também uma simples tosse já é tida como motivo para separação ou possibilidade de contaminação coletiva. Trata-se sim de dados a serem verificados, percebidos, via ação de observação e intervenção. Por conta disso, a dramaturgia configura-se como um ambiente ficcional onde memória, ancestralidade e clonagem dialogam, todo o tempo, oscilando entre o irônico, o cômico e trágico.

A saber: a performance foi apresentada no salão nobre do Palácio Nacional da Ajuda. Conhecido também como Paço de Nossa Senhora da Ajuda, esse palácio é um monumento nacional português, situado na freguesia da Ajuda, em Lisboa. O antigo Palácio Real é hoje, em grande parte, um magnífico museu, estando instalados no restante edifício a Biblioteca Nacional da Ajuda, o Ministério da Cultura e o Instituto Português de Museus.

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