Dois trabalhos, em cartaz no Quinta Com Dança de setembro, no Teatro do Dragão do Mar, convocam uma atenção especial. Dizeres Operários traz no nome sua questão, que é fazer ver aos nossos olhos a rotina de homens e mulheres que trabalham numa fábrica de sapatos. O outro é Negrume que, na cena, assume seu interesse pelo ambiente afrodescendente cearense, onde dançam três bailarinos que mostram no corpo uma história de enlaces culturais e raciais.

Ambos, vindos de Itapipoca, questionam-nos brutalmente, quando se conectam pelo mesmo contexto, mas se diferenciam, sem estarem apartados; quando trazem o desejo de fazer uma dança socialmente preocupada e/ou engajada para ser política; quando evidenciam potências naquilo que poderiam problematizar melhor, criticamente; quando assumem posturas subversivas e até libertadoras, mas também mostram encantamentos no lidar com os discursos das/nas minorias. E me pergunto: o que vem a ser ou pode ser uma arte/dança ativista? Que outros dizeres críticos estas danças pedem, demandam, proclamam?

Dizeres Operários e Negrume são obras implicadas no movimento pulsante de dança, entre o social, educacional e o artístico, que a Companhia Balé Baião vem promovendo na cidade de Itapipoca, em especial, na Empresa DASS, desde 2008, com aulas de dança contemporânea e criação/mostra de espetáculos; mas, principalmente, como Associação de Artes Cênicas de Itapipoca, com ações com a comunidade local, atualmente, contemplada como Ponto de Cultura do Ceará.

O primeiro é resultado do contato de operários com a estética da dança contemporânea em oficinas e mostras no ambiente de uma fábrica de calçados, a Empresa DASS, sediada em Itapipoca. A obra, que teve acompanhamento e direção de Edileusa Inácio, e co-direção de Gerson Moreno, ambos da Cia. Balé Baião, vem com um desafio outro: dar oportunidade para pessoas que não são de dança terem experiências de dança. Antes já haviam se apresentado no Teatro Sesc Senac Iracema, em Fortaleza, com o espetáculo Maquinaria, de Gerson Moreno, e também no Festival de Dança do Litoral Oeste, com o Tá na hora, de Edileusa Inácio.

Não cabe aqui entrar nos méritos artísticos, uma vez que o trabalho nasce com outro movimento, que é criar horizontes positivos para estes operários dançantes: Clismênia de Sousa, Marlene de Lima, Francisco Mardônio Teixeira, Hilda Moura, José Ricardo Bezerra, Maria Edvânia Gonçalves, Renata de Sousa Matias, José Rodrigo Penha, Carlos Augusto Júnior. Temos que considerar – para além dos projetos estéticos que nutrem, mas também dominam a cena contemporânea brasileira – o poder da dança no transformar as pessoas, libertar seus corpos da normatização do dia-a-dia, dar-lhe humanidade. Mas será que conseguem, tem conseguido, temos?

Negrume, com bailarinos da Cia. Balé Baião, apresenta uma coreografia de movimentos e gestos para falar do negro cearense mestiçado dançante ritualístico. Nele a questão do um corpo brasileiro afro-descendente evidencia-se nas referências musicais, transitando entre os sentimentos de clausura e da liberdade, enquanto herança histórica dos tempos da colonização, que ainda permanecem fortes mas com outras roupagens. Daí a importância de ver dançar Viana Júnior, Gidalto Paixão e Pergentino Davi, sendo este último um ex-operário da fábrica de sapatos onde foram ministras oficinas que resultaram no primeiro trabalho.

Quando os três dançam, ora juntos, ora em solos, somos contagiados por corpos mestiçados de uma cultura dinâmica. Mas para isso, precisamos nos desapegar dos determinismos de origem e de raça, a que tipo de negro eles são, mesmo que o espetáculo venha com essa proposta de afirmar uma linhagem afrobrasileiracearense. O que eles representam ou podem representar é uma fronteira borrada, do viver o movimento como algo que está lá, incorporado, embodied.

Cabe-nos refletir bastante, criticamente: como mudar as realidades se ainda há uma tendência nossa e da maioria das pessoas em utilizar as mesmas estratégias dos que nos oprimem e subjugam?

Como contraponto, entusiasma-me ver criadores de dança interessados em temas políticos ou que mexem, de algum modo, com ambientes tabus, quase intocáveis. A dança, por acontece no e pelo corpo, já traz em si o caráter político, daí o desafio. Na conversa com os operários, ao final do terceiro dia da temporada, senti que muita coisa tem sido feita, que muita coisa tem acontecido lá em Itapipoca, mas ainda há muita coisa pra mudar, não só no ambiente da dança do Ceará.

Tem a ver com os preconceitos com quem faz dança, ideias de dança ainda pouco elaboradas ou muito presas a concepções disciplinares do corpo, um olhar sexista para quem faz dança, certa glamorização do estar em palco, um viés apenas terapêutico no lidar com a dança. Tem a ver também com a forca da dança de aproximar as pessoas, de criar outros contextos de corpo, de fazer as pessoas se sentirem humanas e felizes, de podem gritar para o mundo “eu sou um corpo!!!!”. São constatações e contradições para ginasticarmos diariamente no sentido de construir outros sensos comuns, outros entendimentos do que é ser dança e com a dança.

Pois uma lição podemos aprender. A dança não vai mudar o mundo, nem qualquer outra arte, mas pode sim desestabilizar alguma coisa para avançarmos, humanamente.

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