No espetáculo Sim: Não: Talvez, do Núcleo de Doc-Dança da Artelaria Produções, apresentado no segundo trimestre de 2011, na capital cearense, o que fica mais forte é a mistura em vários sentidos: de ambientes domésticos com cena, do público com dançarinos, do texto falado que se repete, resignifica e varia, nas idas e vindas do amor, e como lidamos com isso.

“Era uma vez, outra vez a paixão”. Essa que não temos controle, que acontece, “pois tudo no mundo acontece”, e você escolhe vivê-la, fazendo receitas entre o casal, ou para você mesmo quando ela passa. Mas ela volta, e você se entrega à outra perda, “pelo sim, pelo não, pelo talvez”, pelas possibilidades. Possibilidades entre os comparti(lha)mentos.

Ambientes montáveis, assim como no amor.

Um ambiente de casa. Mostrando cômodos que o público pode percorrer, público esse que quase se confunde com o ambiente tão convidativo gerado. Dá até vontade de entrar na cena, senão fosse pelo estado corporal distinto entre quem dança e quem só assiste.

Há uma aleatoriedade, um acaso muito forte no que é narrado, pelos ires e vires da paixão, mas que se torna diferente nas ações, apesar de ainda haver essa estado aleatório pelas pequenas improvisações dentro das partituras. Um acaso na cena e a presença do público que pode vir a estar em algum local não previsto.

Como diz Paulo José, diretor e um dos bailarinos, “a vulnerabilidade não é algo que trabalhamos aqui, mas ela está presente com certeza, tanto incidentalmente quanto acidentalmente”. Ele completa. “É algo que vamos lidando na hora, não o incluímos, mas também não ignoramos, deixamos a vontade mesmo, pois logo se torna visível que ele pode impedir a execução de alguma cena”. Isso vale tanto para quem está dentro e pra quem está fora da cena.

O trabalho mostra uma bela composição de encaixes. Isso é válido tanto pelo cenário que é deslocado, quanto pela variação na iluminação, as cores no figurino, as falas e mudanças de cena, os ambientes de cada um que dança, os (des)amores, as receitas…

Essa dramaturgia modal, trazida pelo criador do texto Ricardo Guilherme, se configura em repetir as frases moldando-as, trazendo uma parte do texto, repetindo o mesmo pedaço e adicionando mais texto, contando mais um pouco da história, depois utilizar o mesmo texto em outro momento, dando a mesma frase outros significados e percepções.

Nessa obra digo que o texto é bem resolvido, vemos isso na forma que se utilizam dele variando a qualidade, adaptando os sentimentos ditos em ações pontuais que se repetem, como se dá o texto no corpo e na própria voz.

Abismos. Nos olhares.

Vejo cada um como um (in)cômodo da casa, como uma janela, um armário, um vídeo, um abajur, um local que pode ser visitado. Mas não se pode ver tudo, assim como no amor. Há uma grande maleabilidade, algo de permeável no grupo, assim como no amor, pois assistindo essa temporada certas especificidades aconteceram, como um dos integrantes que tinha apresentação e outro que se machucou. Como é resolvido incluindo outro ser dançante ou adaptando cada cena.

Eles cantam, eles filmam, eles projetam, eles mudam, eles ascendem, e depois apagam, eles variam, eles repetem, eles fazem, e depois vão embora, e eles voltam, para então dizer que “tudo isso era a grande desculpa pra estar junto”. Assim como no amor.

“E agora, o que fazer com esses restos?”

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