A vida ensina muito para quem dança. Vivemos e nem atentamos para essa relação entre arte e vida, entre vida e arte. Há muitas urgências e nem sempre (nos) damos conta do que estar a acontecer conosco e em nosso entorno, à nossa volta nos circundando.

São os sinais da vida, ou melhor, da pulsação da vida e de vidas. Aquele movimento, aqueles movimentos, que nos contradiz, que nos contradizem. Devo ir? Devo insistir? Hora de retornar? Um livramento? Um acontecimento não percebido dentro de outro altamente percebido?

Sim, a vida ensina muito. Para quem dança, talvez ensine mais ou menos, não sei. Suspeito que tem a ver com essa pulsação de corpo e movimento na decisão de dançar. Pois decidimos dançar. Essas decisões são bem antes de uma temática, um tema, um assunto, é bem antes do dançar sobre alguma coisa. Decidimos dançar quando dançamos.

Para dançar é preciso dançar. Necessitamos, há uma necessidade. Ao mesmo tempo, há uma exatidão, uma precisão nesse decidir. Percebo um sentimento dos tempos de Lisboa. Esse outrora agora é o que lá estão a chamar de Risco da Dança. Outra ambiguidade, outros movimentos. Na voz de Sofia, gravada num áudio, ganha corpo, faz-se carne, encarna.

Se ensina muito a vida, ela também aprende. Quem dança também ensina. Mas não são meramente dois lados que se inter-relacionam. Tem mais coisa nesse entre. Muitos entres em um entre, um muito-entre de entres.

Gosto da palavra “interstício”, porque é um entre preenchido de desconhecidos, incompletudes, descontinuidades, atravessamentos etc, em muitas travessias que não ambicionam chegar num lado ou no outro, de ir a um extremo ao outro, mas de estar em estado permanente de entres de travessias. É o caminho do meio, diz a filosofia budista.

Pois a dança ensina muito para quem vive. Aprende também com quem vive.

Do senhor Cícero Paraíba, entre Várzea Alegre e Granjeiro, que me ajudou quando o carro que eu dirigia saiu da estrada e me deu a imagem de livros com areias entre as páginas.

Ou quando Dona Alda, de 83 anos, que conheci no ônibus disse que a melhor coisa do mundo é namorar, quando ela, casada uma única vez, disse que namorou muito o falecido marido, até o seu último dia de vida.

Ou quando na loucura de uma aterrissagem de emergência e um voo cancelado em Juazeiro do Norte, rumo a Fortaleza, para uma entrevista de dança, decidi não seguir o fluxo da maioria.

E quando Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, nos fala que o bicho humano, que ele conhece bem, é o único animal que tropeça. Humanamente, tropeça.  Que é o único animal capaz de se autodestruir, que desperdiça a vida para perder sua liberdade.

Que nesses mundos circundantes em seus mundos próprios, contrariando as manchetes midiáticas claustrofóbicas, há muito movimento de vida existindo e resistindo. Que a vida segue e nos segue. Que tentamos segui-la, persegui-la.

No final desses entres e dessas travessias, talvez livramentos, se alguém me pergunta, aliás:
se você me pergunta: Como vai? Respondo sempre igual: Tudo legal”.

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