Tenho andando a fazer mudas de cacto planta de espinhos.

Antes eu comprava uns jarros pequeninos com miniaturas desses cactos, pela estética minimalista das formas. Tanto que a senhora da loja de plantas sempre me dizia: “você jovens adoram essas plantinhas por causa das formas, né”. Respondi que sim e não tinha ironia alguma na fala da senhora. Na verdade, deu-me um lindo recado, de tanto ver pessoas jovens, ela que já deve ter seus mais de 60 anos, viu em mim uma dessas pessoas que se encantam pelas pequenas formas, essas formas pequenas, as coisas miúdas, certas miudezas da vida mundana.

Li que os cactos são guardiões para a técnica Feng Shui, ajudam a conhecer nossa força interna em momentos de solidão e são metáforas intensivas para pensar corpo e sobrevivência, já que é um tipo de plantas de clima quente, por isso armazena água, e tem seus espinhos como aparentemente hostis. Sem querer, talvez por instinto, meu corpo anda a se sentir cacto mesmo desejando virar bicho pedra outra coisa humana. Pensar as mudas de um passado “movedouro” num presente “dançadouro”, esses tempos contemporaneamente incorretos e descontínuos que precisamos nos atentar para permanecer e arriscar outros modos de estar e ser no mundo.

Foi, então, que nos últimos meses, mais precisamente neste mês de maio, que meu encantamento pelos cactos ganhou força. Até peguei uns pra plantar com minha mãe no bairro Benfica e dois deles vieram no carro comigo, numa viagem de mais de oito horas que acabou como um imprevisto na estrada. Esses acidentes que nos colocam e nos tiram ao mesmo tempo de certas estatísticas. Escapamos e sobrevivemos. Desaprendemos e aprendemos.

Um desses cactos larguei na ribanceira e ele se fixou noutra planta. Será que ainda está lá? Já o menor, que tinha dado por perdido, encontrei quando fui fazer uma das duas vistorias do carro na oficina. Estava lá escondidinho embaixo de um dos bancos de trás. Não relutei, peguei-o e trouxe pra casa. Devidamente replantado, está firme e forte. Na varanda, espreita o fora-dentro, o dentro fora, e a si espreita.

Pois foram esses dois cactos, um que ficou lá e outro que está cá comigo, que me deram uma das imagens mais forte desse incidente, esse acontecimento imprevisto, evento, ocorrência, circunstância, dificuldade, episódio, imprevisto, inconveniente, inesperado, peripécia. Milagre porque entrei e sai de certas estatísticas, um milagre do acaso não por acaso. Lembrei das aulas de Pilates, dos exercícios aéreos, que gosto tanto e muito, e talvez, por trabalhar controle e inversões nos aparelhos, meu corpo criou certa prontidão. Talvez.

Sem ferimentos, duas imagens se tornaram corpo em mim: a imagem de livros com terra entre as páginas. Seriam livros enterrados que desenterrei ou livros escritos com palavras-terra? Ou ainda terras que se enterram nas palavras dos livros ou mesmo, palavras que não suportam mais serem palavras e se metamorfoseiam em terras, esses pequenos grânulos que bem poderiam ser palavras fragmentos minúsculos?

Pois para fazer mudas de cactos, preciso de terra e vaso. No carro eu levava os dois cactos, um num jarro maior e outro num menor. Parei muitas vezes nessa viagem pra ajeitar o jarro maior. O menor ficava preso no maior e não tinha muito problema. Mas o jarro maior com o cacto maior deu um trabalhinho. Na verdade, ele estava era me avisando: cuidado com a estrada. Pois eram nas lombadas que ele saia do lugar e eu não tenho, confesso, muita paciência com lombada. Aceitei o conselho e me senti em companhia.

Esses pequenos atrasos é que me fizeram que o acidente não fosse nem mais pra lá nem mais pra cá da casa do senhor Cícero Paraíba, que me socorreu, porque estava de vigília. Pois, numa estrada ruim com muitos buracos e terra molhada, um início de noite cegou-me os olhos para eu voltar a enxergar uma voz outra desse bicho pedra gente humana animal.

Que “o melhor lugar do mundo” é onde mesmo?

A vida responde: “Aqui e agora”.

Mas que aqui- e-agora é esse?

Um “agora que é quase quando”.

Mas quando mesmo?

Um “quando ser leve ou pesado deixa de fazer sentido”.

E o aqui?

“Aqui de onde o olho mira”.

Agora?

Um “agora que ouvido escuta”.

O que escuta, então?

“O tempo que a voz não fala, mas que o coração tributa”.

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