Fotos: Terezinha Albuquerque.

Tornar-se um humano dançador é encarar cumplicidades. Há certas distinções que unem em vez de separar. Tornar-se um bicho dançador no ser dançarino é a gente sentir forças instintivas. Elas estão conosco o tempo todo. Talvez adormecidas ou, então, anestesiadas.

É outra selvageria. Não a de uma sociedade que capitaliza tudo. Essa daí me interessa menos. Nem tudo precisa ser objeto de consumo. Só desgasta, esgota. Humanamente. Enquanto ainda somos. Porque se somos todos humanos, gente e bichos, por que ainda vivemos de modo humanoide ou animalizado?

Minha mãe tira muitas fotos de Gonçalo, nosso gato maroto. São imagens humanas de um bicho gente, gente bicho. Ele é um vivente como nós, entre nós, e ele conosco, com a gente, todos gente. Porque se todo bicho é gente como nós, diz Eduardo Viveiros de Castro, então tudo é perigoso e imprevisível.

Gonçalo é um felino maroto, sim. Até perfil no facebook tem. Em 2011, eu caminhava cedinho pelo bairro do Montese, em Fortaleza. Havia chegado há um mês de Lisboa. Era agosto. Retornava de um estágio de criação para a performance “Virar Bicho”. Caminhava e andava, e me deparei com um bichano. De tão pequenino, pulsava vida e curiosidade. Todo amostrado, (sobre)vivia numa sucata de carro, no meio da rua.

Ainda não era Gonçalo, apenas um pequeno felino. Ele estava lá ora a brincar, ora a disputar com os gatos maiores e mais velhos, diga-se mais experientes, o pouquinho de comida e de atenção. Com uns 4 meses, descobri depois no veterinário. Lá já tinha o atrevimento no corpo. Movia-se felinamente. Isso que faz ele ser tão maroto até hoje nos seus contorcionismos cotidianos.

Tomei coragem. Acordei cedo. Eram umas cinco da manhã. Fui ao encontro dele. Chegando lá, aproximei-me. Ele não se amedrontou. Peguei-o rápido e o levei até a esquina. Mas ele voltou pra sucata. Fez sentido, ainda faz. Era seu habitat.

No dia seguinte, decidido, fui lá e o peguei. Levei-o até a casa do Montese e larguei no jardim. No caminho, bons arranhões ganhei. Ele estava amedrontado. Escondeu-se o dia inteiro. Aos poucos apareceu e foi fazendo morada. Desde então, faz parte da família, atualmente morando com minha mãe, Terezinha, em Tianguá. Depois de muitas viagens não tive como cuidar dele, hoje apenas pelas fotos.

Retornei recentemente ao Ceará. Gonçalo e seu nome português me mostram nesse virar bicho que é preciso virar humano. Ele adora poses. Mamãe o fotografa sempre que possível. Deve ter por aí umas umas duzentas fotos, ou mais. Ele gosta. Ela gosto. Eu gosto. Nós gostamos. Vivências e estudos dessas poses. São convergências espetaculosas da vida de hoje. Talvez uma dança contemporânea. De muitas verdade. Destas sobrevivências que movem vivências.

Imagens que se tornam corpo. São muitos os flagrantes da vida cotidiana. A internet que nos diga. Ver pessoas sendo filmadas e se deixando filmar. Ou mesmo, perceber depois de filmadas, frameadas. Vivemos isso o tempo todo em muitos tempos. Estamos em videovigilância de nós mesmos. Já há algum tempo. Espetacularizados nos autocomunicamos e somos convocados.

Nomes feitos palavras, temos de sobra. Nomes são muitos. Gosto deles. Mostram possibilidades. Sem carro, a caminhar e andar, as coisas cotidianas se tornam intensivas de tão cotidianas. De pés ou de bicicleta. Outro movimento, o mesmo, mas diferente. As constatações inquietam de tantas. A cidade engole e antropofagiza. No online-offline, inseparáveis, a errância apronta-se. Politizamo-nos. Há outra conectividade. Humana e animalescamente.

Pois “eu não estou interessado em nenhuma teoria”. É que  “amar e mudar as coisas”, e de novo, “amar e mudar as coisas”, sinto que “me interessa mais”. Ou de outro modo, as danças da cotidiana vida cotidiana, na cidade que engole e antropofagiza, nos coreografam mais…

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