(frame de vídeo: Paula Carneiro)

Qual o contexto em que emerge/surge/ se cria uma obra? E como esse contexto determina o trabalho artístico, já que forma e conteúdo nunca estão separados? O contexto da criação determina o produto artístico, o artista tendo ou não consciência disso. Como então podemos pensar em Xou, espetáculo solo de Vanessa Mello, a partir do contexto onde ele foi criado?

Esse trabalho, que mobilizou o Crítica com a Dança na itinerância Salvador, realizada em julho último, surge num momento de “desmame”, de transição do Grupo Dimenti para outra configuração de trabalho e ética, algo que não cabe mais no nome coletivo, contudo, ainda não dá para nomear ou categorizar em algum modo de produção existente. Após a apresentação, que aconteceu na quarta-feira, dia 11 de julho, realizamos uma conversa com Vanessa, o Dançar para Conversar Itinerância Salvador BA, na Baluarte – Casa de Arte, no bairro Santo Antonio, com colaboração de Paula Carneiro, com mediação minha e de Joubert. 

Como o contexto “fim “ de um coletivo interfere/ impulsiona uma criação artística? Você cria porque “não acabou” ou porque quer continuar de forma diferente? Trabalhar sozinho surge de uma vontade ou da demanda (de mercado, de perfil, estratégia de sobrevivência)? Afinal, os coletivos geram ou não autonomia para as pessoas? Esta última questão, trazida por Vanessa, me faz pensar até hoje. 

O momento de maturidade do coletivo que está em transformação coincide com a maturidade da artista que se aventura pela primeira vez como criadora, em parceria/colaboração com um artista mais experiente. Um solo ritual de passagem, para exorcizar as frustrações, rir das desgraças e refletir sobre este ideal de vida perfeita que nos é mostrado como realidade ainda hoje, e que está presente em todos os aspectos da vida, do programa da Xuxa ao outdoor com modelos inacessíveis de tão perfeitas – e tratadas no photoshop.

Primeiro trabalho autoral de Vanessa Mello, criado em parceria com o artista Elielson Pacheco. O trabalho estreou em 2011, dentro do projeto CADA, projeto do Dimenti de criação de 6 solos. Para a maioria dos artistas envolvidos, a primeira experiência como criador de um trabalho. 

A primeira vez de alguma coisa sempre fica marcado. Compreender Xou como sendo uma primeira vez pode trazer pistas. E Xou é assim, um ritual de passagem, dentro e fora da cena: do choro pro caos, da adolescente para a vida adulta, da ilusão pra vida real, da intérprete pra criadora. O choro da desilusão, do que não tem mais volta, da frustração, daquilo que não tem palavras, da desgraça, do ridículo, daquilo que desejamos e não pudemos ter, daquilo que dói. 

O choro como mote para a um estado corporal, para uma dança, para uma discussão, a Xuxa como pretexto para um olhar crítico do passado e de como estamos afastados ou próximos do tipo de vida que escolhemos.

Todo artista trabalha a partir das suas questões pessoais. Xou consegue aquilo que é o mais interessante quando se fala sobre si mesmo que é se identificar no outro, quase que dizer que aquilo que parece ser tão íntimo não é só seu (alguém também já chorou por amor…).  Como é bom rir das desgraças dos outros, talvez porque nos identificamos nelas. O choro incomoda, faz rir, causa silencio, expectativa, reflexão.

Depois do choro e do caos que se instala, ela vai embora. Ah? Achei que tinha algo que estava faltando, que não sabia dizer o que era. Como se o solo não tivesse terminado. Depois pensei se isso que falta não é a minha reflexão sobre tudo que ela traz com aquele choro e com aquelas referências. Ainda não tenho certeza. Mas fica uma sensação de falta.

SINOPSE DE XOU

O espetáculo Xou, de Vanessa Mello, de Salvador, cria um universo cor-de-rosa – estranhamente reconhecível – que mistura diversas referências e ícones pop, como Xuxa, programa de auditório e conto de fada, numa coreografia que, enquanto exorciza tudo isso, mergulha num vale de lágrimas! Catarse, criação e exorcização. Olha que tá na hora de mais uma fornada, quem não levar agora não leva mais. Tão gostosinho, gostosinho, gostosinho. Tá quentinho, tá quentinho, tá quentinho. O jovem ouviu o lamento da princesa e julgou ser um náufrago aflito, subiu o rochedo, mas não viu ninguém. Quanto mais perto chegava, no entanto, mais nitidamente ouvia uma lamúria. Sérgio Malandro ficou impressionado.

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