(Imagens sobrepostas: Candice Didonet)

O prefixo RE é normalmente escrito como ideia de outra vez, reincidência ou mudança de movimento que pode inventar de novo. Reescrever pode apresentar assuntos de outros modos, em diferentes constâncias de repetidas grafias. O movimento do prefixo RE procura escrever palavras que se tornam ações constantes de seus modos de leitura.Na palavra reação, esse prefixo pode ser REação, compreendida como outra ação, outra vez oportunidade de se REagir exercitando possibilidades e modos de ações que convocam as suas vivências.

A proposição de compreensão do prefixo RE como flutuante pode tornar oscilante o significado da palavra, que REescrita faz agitar ao vento, ondular e tremular sentidos. O movimento de reescrita pode indicar a hesitação de sua semântica pelo seu prefixo flutuante.

Pensar a dança na contemporaneidade pode ser exercício dialogante entre prefixos flutuantes, compreendendo ações do corpo como REescritas em percepção crítica dos pensamentos que engendram. Algumas obras de dança podem deslocar relações de quem “assiste” em circunstâncias de reescrita dessa experiência. Exercitar criticamente a percepção de uma obra de dança relaciona sem substituí-la tornando possível a reescrita de ações como modos de assuntar, conversar, questionar e etc.

A ação de criticar pode ser reescrita constante, flutuando possibilidades e nexos de significação como percepção que pode tirar a obra de uma presença difusa e oculta que impede seu acesso.A palavra “crítica” não existe sem o ambiente que a articula, sem o corpo que engendra as grafias que a transforma em ação.

As obras de dança contemporânea presentificam ações no mundo. Essas presentificações dizem respeito as suas materialidades e aos modos de acontecimento que estabelecem vínculos em seus ambientes de ação. A dança lida com a presença/ausência do corpo que presentifica na obra a exposição do seu acontecimento.

Os pensamentos críticos que podem trabalhar com ações diluídasdas obras/espetáculos muitas vezes apresentam-se como reflexão escrita de um espetáculo de dança. Porém, essa escrita já é reescrita de própria experiência do acontecimento da dança. Dessa forma, a presentificação da crítica pode ser considerada uma constante de existência, no sentido que dialoga as experiências e ações que envolvem uma obra/espetáculo.

Do momento de criação ao compartilhamento com quem “assiste”. Nas relações que as obras danças contemporâneas vão estabelecendo com outros, o diálogo como assunto crítico pode mover volumes flutuantes de compreensão do significado desse encontro. Para abordar criticamente obras de dança torna-se necessário refletir como essas experiências podem acontecer. Portanto, exercitar a crítica como ação pode ser alternativa de entendimento do que algumas obras de dança propõem.

Talvez do encontro com sua própria reescrita a crítica possa exercitar a busca pelo diálogo, pelo alargamento das fronteiras de experiências que a rodeiam. As articulações e possibilidades de compreender assuntos escolhidos com diferentes tipos de ações em dança podem experimentar deslocar contextos que habitualmente acompanham algumas obras ou espetáculos. Torna-se necessário perceber a crítica com a dança pelo aspecto flutuante, aquele que presentifica a crítica como reescrita dançante da sua experiência.

Referência

RIBEIRO, António Pinto. Corpo a Corpo: possibilidades e limites da crítica. Lisboa, Edições Cosmos, 1997.

 

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