No começo do ano de 2011, escrevi palavras esperançosas sobre a nova gestão da secretaria de cultura do estado, num texto crítico de retrospectiva do que aconteceu neste ano para/com a dança no Ceará: Que nome nós é próprio na Dança?

Talvez por acreditar que, mesmo com os níveis baixo de comprometimento, a classe artística havia conseguido ganhos consideráveis, como um edital mais próximo, ou menos distante, da realidade das linguagens artísticas, por exemplo.

Agora me entristece ver que nada foi feito, evidenciando o grau de atraso da nossa secretaria estadual de cultura, quando não faz o mínimo, que é ter abertura para o diálogo para, assim, conhecer o contexto cultural. Pelo menos, era para ser.

Se a gestão de Auto Filho como secretário de cultura do governo anterior, já eram nítidos os problemas e perdas consideráveis para a pasta da Cultura. O que não imaginávamos é que tal situação poderia ficar mais grave, isso mesmo, o que ninguém imaginava é que ainda poderia ficar pior. E está mesmo!

Chegamos em dezembro, o ano já findando e o único sentimento que temos é de indignação, com letras bem grandes. Dois assuntos evidenciam isso: o VIII Edital Ceará de Incentivo às Artes 2011 e a atual situação do Curso Técnico em Dança – CTDanca/Ceará.

É fato. A classe artística não está satisfeita com a atual gestão do Governo Estadual. É muito descaso com a Cultura. Enquanto outras instâncias, como a Prefeitura e o Governo Federal, vem avançando em suas políticas de atuação (outro assunto que merece debate), a Secretaria de Cultura do Estado – Secult/CE, na gestão do Governador Cid Gomes, só demonstra pouco caso com o contexto que dá sentido a sua existência administrativa dentro de um governo. Muitos são os motivos.

Há muita dificuldade para conseguir marcar reuniões que, quando é um só agendada, acaba por ser desmarcada um dia antes, por motivo de viagem ou outra reunião de última hora. É sempre a mesma justificativa.

A dança, em especial, tem sido uma das mais prejudicadas com essa negligência/descaso/desinformação.

Recentemente lançado, o Edital das Artes da Secult (VIII Edital Ceará de Incentivo às Artes 2011) teve um regresso nas conquistas, desconsiderando o que foi acordado na gestão anterior, com relação às categorias e à distribuição de apoio. Passaram por cima, pois o que está lá neste edital não condiz com a especificidade de cada categoria e o que foi construído em um dos poucos momentos de dialogo no governo anterior.

Por exemplo, na categoria “Pesquisa” eram 2 prêmios de R$ 20 mil cada, no edital 2010; agora são 8 prêmios de R$ 5 mil. Assim, o total de R$ 40 mil foi dividido segundo uma lógica meramente quantitativa, uma vez que o valor atual impossibilita a boa realização de uma pesquisa, fato presente nas primeiras edições desde edital. Ou seja, representa um regresso e evidencia a indisponibilidade para um diálogo, já que a classe artística da dança sempre este em prontidão.

Parece mesmo ser uma mera decisão de gabinete, essa da Secult, desconsiderando a complexidade da dança como área cultural e não merecendo ter o nome que tem: um edital de incentivo às artes? Como assim?

A saber, o Banco do Nordeste, que já vem estreitando relações de forma positiva com a Dança, por meio da programação do seu centro cultural em Fortaleza e Juazeiro do Norte – CCBN’s, também lançou um edital onde reconhece a especificidade da dança (Edital Programa Banco do Nordeste de Cultura 2012). Neste edital a dança está como área independente, dada sua força local e suas demandas específicas nas chamadas artes cênicas.

Ainda, o Curso Técnico em Dança – CTD está há dois meses está sem recursos, no andamento da sua terceira turma, e tem sido mantido por uma ação voluntária de aulas de ex-alunos do curso. Contudo, decidiu suspender as aulas até que algo seja feito.

Neste assunto, o descaso segue o mesmo padrão. O Fórum de Dança tem marcado reuniões com Isabel Fernandes, diretora de Ação Cultural do Centro Dragão do Mar, no entanto, as tentativas são frustradas, sendo desmarcadas rotineiramente. Na última tentativa de uma conversa, uma reunião que aconteceria com ela esta semana foi desmarcada sob alegação de outra reunião, agendada na última hora. Houve até uma visita surpresa, por parte dos alunos da 3a. turma, que correm o risco considerável de não se formar, mas, ao que pareceu, foi uma conversa evasiva com nenhuma decisão acertada ou esclarecimento convincente.

Tal comportamento é contraditório e incoerente, porque o Centro Dragão do Mar é a instituição idealizadora e realizadora do projeto do Curso Técnico em Dança, em parceria com a Secult e Senac, sendo seu único projeto de formação que ainda existe, mantido gestão após gestão graças ao apoio da classe artística.

Importante enfatizar que o CTD tem cumprido uma função decisiva no contexto formativo em dança no Ceará, que hoje conta com a graduação em dança pela UFC, iniciada este ano somente. Antes disso, já há 7 anos, é o espaço que vem acolhendo os artistas e pessoas interessados em uma formação especifica em dança. Consideremos também o reconhecimento nacional de alunos formados no CTD, dado seu nível de qualidade.

Por isso, o atraso no repasse de verbas, sem qualquer sinal ou previsão de resolução, pode prejudicar o andamento da 3a. turma, tornando inviável sua formatura, contribuindo ainda para o aumento do índice de evasão e desistências dos alunos, muitos deles bem desestimulados.

Há mais coisa, sei, sabemos.

A situação do Curso Técnico em Dança e o recente edital das Artes da Secult são os evidenciadores de uma gestão estadual pouco ou quase nada sensível às demandas dos artistas e de um atraso quando desconsidera a importância da dança no processo de desenvolvimento artístico e cultural do nosso estado.

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