O corpo é máquina, o corpo é instrumento, é produto de venda, é objeto de pesquisa. Até chegar ao século XXI, quais os caminhos percorridos pelo corpo?

Por
Elisa Parente
Jornal O POVO
27/06/2010

A percepção do corpo, ao longo da trajetória humana, se desenvolveu a partir dos mais diversos âmbitos. A dicotomia corpo/mente dos filósofos gregos, a medicina que descobre um corpo recheado de órgãos, a sociedade de controle do corpo, os movimentos de libertação dele. O corpo que atende às leis sagradas, que gesticula e expressa. Corpo que se supera para atender à sociedade industrial e que é descartado por ela em detrimento das máquinas. Lugar interdisciplinar, o corpo é objeto de conceito plural.

Mas para traçar uma trajetória, o professor de História da Arte Carlos Velázquez Rueda lança um recorte de pensamento. “O conceito de corpo, posto como problema de investigação filosófica, apresenta uma única trajetória. Não falaria em diversas teorias, a menos que estendêssemos o conceito para as ciências naturais, da saúde ou tecnológicas. A espécie animal humana se diferencia das demais porque tem a capacidade de representação mental de seu entorno e, principalmente, de si próprio”, explica o coordenador da faculdade de Belas Artes da Universidade de Fortaleza (Unifor).

De acordo com Velázquez, a dicotomia corpo/mente só passa a fazer sentido quando o indivíduo se constitui como unidade de medida, em detrimento de qualquer visão coletiva. “É nesta conjuntura que a dicotomia corpo/mente faz sentido e é nela mesma que a filosofia cartesiana e iluminista francesa reconheceram o corpo como problema de investigação”. O que se segue, são observações que obedecem aos movimentos provocados principalmente pela ascensão política e econômica da burguesia. “Michel Foucault reconhece, por volta dos séculos XVII e XVIII, um movimento pelo qual o corpo é instrumento de dominação política, dominação fortemente exercida pela repressão sexual. E um segundo movimento, mais recente, no qual a dominação é exercida pela liberação sexual do corpo”.

Status Frankstein

Se nos séculos anteriores a medicina se ocupava em descobrir o corpo, é no século XX que este corpo é inventado. O jornalista e crítico de dança Joubert Arrais explica que o século XX tirou o corpo do status Frankstein e o inventou teoricamente. “Do corpo-monstro de laboratório, deu-lhe ‘consciência’ de que nem tudo era dissecável. Admitiu-se seu alto nível de complexidade biológica e cultural. Aquilo que vemos/percebemos era ação corporal, nada a ver com ilusão de ótica. O inconsciente humano não era um buraco negro e o corpo transformava em carne a decepção, o ciúme, a frustração, a felicidade”.

É com a chegada das décadas de 1960 e 1970 que o movimento das minorias lançou outro olhar para o corpo. “É quando, nas ruas e nas manifestações, proclamavam que ‘nosso corpo nos pertence’ (lema feminista)”. Os movimentos se firmaram com tanta força que a década seguinte parecia procurar se recuperar do “tudo é possível”, da noção de liberdade zen e real, do sofrer as consequências com a AIDS. “Os anos 1980 foram um período de ressaca com um movimento inverso. Veio a cultura fitness do corpo saudável, remoldável. Junto e já repercutindo nos anos 1990 que, trazendo um pouco das décadas anteriores, foi uma incógnita, talvez um preparo pro novo século, um quase morrer/viver de vésperas para novamente questionar: nosso corpo ainda nos pertence?”, lança a questão Joubert, mestre em Dança pela Universidade Federal da Bahia.

 

A versão eletrônica original está disponível em CONCEITO PLURAL e fez parte de um caderno especial do Vida & Arte, do Jornal O POVO, sobre O Corpo no Século XXI .

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