Para ser movimento, o corpo precisa dançar. Quando isso acontece no plural, ou seja, muitos artistas juntos partilhando a dança do outro. Mas para isso acontecer, ser possível acontecer, é extremamente importante a existência de espaços para experimentação artística, onde seja possível:

ARRISCAR IDÉIAS EM PROCESSO,
TESTAR HIPÓTESES NO CORPO E NA CENA,
DESCOBRIR OUTROS MODOS DE MOVER O CORPO,
INVENTAR PROXIMIDADES COM O PÚBLICO,
ATÉ MESMO PARA (RE)APRENDERMOS
A SER UM PÚBLICO ATIVO E PARTICIPANTE.

A Mostra Solos e Duos (este ano, com os Trios, como trocadilho), iniciativa do Centro de Experimentação em Movimento – CEM, dirigido pela bailarina e atriz Silvia Moura (na foto, em Engarrafada); e Artelaria, que tem à frente o bailarino, ator e coreógrafo Paulo José, aconteceu durante todo o mês de maio, em diversos espaços da cidade (Artelaria, Theatro José de Alencar e Teatro Universitário/UFC), mobilizando artistas e pesquisadores da capital e interior do Estado, em suas variadas e distintas maturidades.

Forjou, assim, situações onde foi possível mesmo sentir o movimento do outro e o movimento de nós próprios nesse estado criativo da/para experimentação. Foram cerca de 100 apresentações de propostas em processo (ou já consolidadas, atualizando-se no contexto da mostra), muitas delas do mesmo trabalho. Feito uma bolha, a mostra deu vazão, circunstancialmente, a desejos e vontades de dançar e estar dançando.

Tudo isso evidencia que a criação em dança tem especificidades relacionadas ao corpo e ao cênico. Carecemos de uma dinâmica outra que possibilite percebermos o corpo pensando, investigando, procurando soluções, mesmo que sejam provisórias, pois no corpo dançante, o provisório, o aparentemente passageiro, deixa marcas, escrituras, memórias, história viva.

Não dá mais pra acreditar que a dança é algo que acontece fora do corpo, pois é nele que as idéias vão sendo maturadas, sinalizando para uma produção de saberes intimamente ligados ao nosso estar no mundo como seres dançantes pensantes.

Mas a questão é que espaços existem na cidade para essa criação e experimentação (com)partilhada? Até quando serão as nossas estruturas pessoais que darão conta de uma precariedade que engessa e desmobiliza?

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