(Foto: Daniela Millerio)

O ano de 2009 é histórico. E a culminância da sua importância aconteceu no seu último mês. Dezembro foi quando o projeto da graduação em dança na Universidade Federal do Ceará foi aprovado, tanto bacharelado como licenciatura. O que me fez revisitar um texto que escrevi para o Caderno 3 do Diário do Nordeste, cujo título é Como Dançar Juntos?, isso em fevereiro de 2007.

Lá, digo, nesse texto, senti uma ansiedade minha ao falar sobre a graduação, no contexto do Nordeste, quando naquele ano já haviam outras capitais com graduação em dança, além do pioneirismo de Salvador. A capital cearense inicia agora seu processo que se desenvolverá em 2010, a primeira década do novo século.

Por conta disso, segue abaixo dois trechos do texto acima citado, onde detectei pertinências para o nosso momento atual no Ceará. O que também tem a ver com o “revisitar textos” que começarei a fazer aqui nas minhas insistências críticas:

1. Daí chego ao ponto decisivo para a dança no Ceará hoje, que é a ausência de uma graduação que dialogue com a realidade da Capital e do Interior do Estado. Houve a tentativa (privada) da Universidade Gama Filho, mas pouco se sabe porque não vingou. Maceió já tem uma licenciatura e é pública (UFAL), recém-criada e a segunda do Nordeste. A primeira foi Salvador (UFBA), pioneira no Brasil, com 50 anos completos em 2006, atualmente com projeto pedagógico reformulado. Aqui do lado, Natal está no caminho, pela UFRN.

Enquanto isso, nossas pesquisas acadêmicas, não muitas, são formuladas em ambientes não-específicos como educação, ciências sociais, filosofia e comunicação (área historicamente mais porosa). Podem contribuir, sim, para a autonomia da dança como área de conhecimento, mas se for rumo à ações desatreladas do esporte e do teatro. E, essencialmente, sinalizam para uma demanda social existente, diretamente ligada à qualificação do discurso sobre dança – ensino, criação e crítica. Fortaleza pode começar nos trilhos certos. E ai, o que (nos) falta?

2. A carência de informação de dança é fato, principalmente porque depende de um acesso e de uma distribuição não tratados como prioridade nas políticas públicas vigentes no nosso país. Mas não é um top-down que vai resolver, nem uma única forma de pensar a dança. Noutra via, é na diversidade de saberes e no conhecimento local que podemos encontrar as “respostas” que, certamente, nos conectará com o global.

Para tanto, explica a professora e crítica de dança Helena Katz, há dois pontos cruciais que precisam ser acordados em qualquer conversa sobre dança. Independente do entendimento escolhido, lembrar de “nunca reduzir a dança ao efeito que ela produz em nós; nem ignorar que toda escolha – incluindo a de não tratar a dança com a propriedade que qualquer objeto de estudo pede – tem consequências políticas, lógicas, éticas e estéticas”.

Enfim, como descobrir por que a rede não acontece, por que não há emergência em refletir coletivamente sobre os entraves na cena e na experiência cearense, vindos sobretudo da ignorância de certas partes que desafirmam – ou simplesmente não aceitam – a intelectualidade da dança. Para se ter boas e suficientes condições de existência, devemos insistir, sim, nesse caminho. Juntos.

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