IN, de Valentina Parravicini, foi dançado no Largo da Severa, no bairro da Mouraria, pontualmente às duas horas da tarde, durante o Festival Urbano Pedras d’Água 2011, que aconteceu em Lisboa, nestes meados do mês de julho. Estive lá com ela a dançar em dois desses dias, dois momentos onde a escrita criou um fluxo de uma redundância permeante.

Momento 1

Janela fechada em estado de dança. Janela a abrir sem ainda estar aberta. Fisicamente, o dentro ainda é dentro, mas já carrega um desejo de ser fora. Nós cá fora querendo ser lá dentro, já sendo. Lá, cá, dentro, fora, à espera de ambos. Documentar como sentir o fluxo dentro-fora, fora-dentro, entre. Onde está Valentina? Está lá, ora pois. Aos poucos a janela materializa um abrir-se, pés que são mãos a abrir frestas, dentro que escapa e passa a ser fora, já era, agora o é mais um bocado. Valentina está a fazer ginástica?, perguntou uma senhora. Ai Sofia disse que não, não será ginástica, era dança contemporânea, com um leve sorriso. In quer dizer dentro ou adentrar. Corpo a sair aos poucos, pés, pernas, costas, coluna vertebral, braços nos apoios lateriais, pés também, o entre a ser vivido no In, entre-in. Corpo que não é só parte, o entre está fora dentro, e nem dentro nem fora, isso exige esforço, o interstício exige esforço para ser reconhecido. Vestido verde de costas nuas e a cabeça é que sai por ultimo, na verdade, cabelos como fios que evidenciam a gravidade, o querer ir ao chão, querendo ir ao céu, inversão, mundo visto investido dá questão.

Momento 2

À janela está Valentina. Entre a janela. Nos entres do entre a janela. Pés anunciam um corpo todo porvir. Janela fechada a abrir-se para quem está cá fora. O entre é nem dentro nem fora, sendo dentro e fora. Estamos cá fora e não vemos o que, de facto, está lá dentro. Supomos. Suponho.

De repente, pés viram mãos e abrem, fisicamente, a janela. Um corpo todo a anunciar-se sem ainda ser corpo todo para quem está cá fora. Uma delicadeza forte cria uma presença física permeada de linhas poéticas. Estar à janela, nós também. Estar à janela à espera é libertação, é ócio, é percurso, é metáfora.

Janela como metáfora do olhar, ver, enxergar. Janela como imagem de um portal de acesso, força que atravessa a estrutura quadrada e concreta de um prédio com outras tantas janelas e também portas. Várias janelas e algumas portas, varandas com roupas estendidas a secar num sol de rachar num verão lisboeta. Janela de madeira e vidro é metáfora do que se guarda, e guardamos, no INterior de cada um, e que, por vezes, escapa, sai um pouquinho, fagulhas.

O corpo ao sair projeta-se para um fora-cima, busca, de algum modo, a vertical, mas fica na diagonal, um perna vai enquanto a outra apóia-se. É trabalho de coordenação e cooperação, a mão direita precisa da mão esquerda, mas cada um tem uma especialidade, ora um é a força e a outra o suporte, ora o contrario, e muito revezamentos dessas partes do corpo que são corpo todo, todo o corpo. O que se vê, o que se consegue ver, é só indicio de um mundo de muitos conhecimentos.

As pernas voltam para dentro e o dorso agora se faz ver, tatear. Valentina cria deslocamentos físicos no entre a janela, forjando um movimento poético, por já o é, pelas intensidades, pelas lentidões, pela feminilidade. Estar IN é difícil, IN como entre-dentro, IN como entre-fora. Contorce-se, ginastica-se, há respiros, muitos.

O corpo não se dá como um todo, mas se dá em partes, vejo, sinto, vemos, sentimos, um todo em movimento, daí a forca das partes, ou seja, a força da delicadeza dos pés a abrir a janela, vai das mãos a um tatear-ver, o entre e as possibilidade de não ser, e ser. Isso é IN é corpo em interstício, materializado em movimentos de descobertas no familiar e estranho, ao mesmo tempo. Descoberta de possibilidades do corpo se adaptar no entre-estranho-familiar.

O corpo agora se faz ver com a cabeça e os cabelos a pendurar-se, escorrem janela abaixo, um deslizar pela beira da janela, que já não é mais só um quadrado de concreto que fura um bloco maior de concreto-prédio. Vemos e sentimos o estar em redor, o entorno, o que está às voltas por ali.

Quem sai de uma janela foge? Quem entra por uma janela é benvindo?

Talvez resida ai o diferencia a porta da janela, talvez. Sorrateios de um corpo a percorrer um entre. A janela tem assim, uma forca outra, percebi. Algo entre a legalidade e ilegalidade, a libertação e a prisão, a pessoa interior e mundo exterior. Veio a imagem de uma janela fechada para sempre, carregando na sua existência o poder de ser aberta mas sem ser. Está lá, a espera de se abrir, ser aberta, mas não.

Quantas janelas temos em nós prontas para serem abertas e não as abrirmos como medo, receio sei lá, algum sentimento relacionado as iminências.

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