Outras danças. Possível? O projeto Quinta com Dança de junho encerra temporada, excepcionalmente, nesta sexta-feira (26), com o espetáculo Ah!, da Cia. do Barulho, em dois momentos que sinalizam para a recente produção contemporânea de dança feita na capital cearense. O primeiro é o espetáculo-convidado Estares, de Heber Stalin (da Cia. dos Pés Grandes); seguido de Amphi, com Aspásia Mariana e Roberta Bernardo, integrantes da companhia cearense. São propostas artísticas ousadas que, mesmo com dramaturgias bem instáveis, apresentam boas construções cênicas, com fortes indícios de um desejo desses criadores por um outro jeito de organizar suas danças.

O solo Estares de Heber Stalin, orientado pela pesquisadora Thais Gonçalves, traz questões autobiográficas pertinentes sobre o dilema corporal-artístico de um bailarino sapateador cearense, apesar de não tão explicitamente. Ele corre pelo palco, angustia-se, corre novamente, liberta os pés do par de tênis, angustia-se outra vez ao estar liberto deles, entre outras situações. Por conta disso, o espetáculo anuncia uma discussão com forte viés filosófico e se mostra ainda em processo, no sentido de uma melhor definição do foco autobiográfico e, principalmente, de se questionar sobre que presença é esta que ele deseja e que precisa se configurar no palco e no corpo que dança.

Já o duo Amphi, com Aspásia Mariana e Roberta Bernardo, também alunas do curso técnico em dança (IACC/Senac/Secult), parece estar num caminho mais ajustado com suas hipóteses de investigação. Anunciam algo que, de fato, acontece na apresentação pública, que é discutir dialeticamente (tese, antítese, síntese) um corpo-cidade e uma cidade-corpo. Não por acaso, o titulo significa “em torno de”. Na pesquisa-espetáculo, já realizada como intervenção urbana, as jovens criadoras questionam-se sobre a experiência com e na cidade, ao mesmo tempo em que se contra-argumentam na mesma perspectiva. Daí vem o valioso viés político de um corpo-mercadoria (“vende-SE” ou “vende-SI”?), tímido e pulsante nas cenas que constroem, inclusive, nos corpos que pretendem ser dança de um outro jeito.

Em ambos, a ousadia é um risco legítimo e louvável, com prós, mas também contras que precisam de uma atenção especial e rigorosa. Tem a ver com certas fragilidades dramatúrgicas tanto na cena, por conta da fraca conexão entre as partes, como ainda no corpo, quando a teatralidade e/ou um certo fingimento da ação corporal prevalece(m). O que pode vir a prejudicar um pouco (ou até muito) as intenções dos artistas em seus propósitos autorais.

Tais dilemas-inquietações, no entanto, são bons alimentos quando o desejo cúmplice é o de refletir sobre as competências comunicativas no que diz respeito à autonomia da obra artística na relação criador e público. Melhor, olhares críticos e estéticos que se distinguem para (nos) unir.

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