Na oitava Bienal Internacional de Dança do Ceará, que teve inicio semana passada, o movimento é fazer o público pensar as muitas histórias da dança. Nos seus quinze anos de existência, o evento cearense traz na programação obras autobiográficas ou que versam sobre a memória de quem dança.

Como é o caso do espetáculo CEDRIC ANDRIEUX, do coreógrafo francês Jerome Bel, apresentado no último sábado, na abertura da Bienal, no palco principal do Theatro José de Alencar. O título da obra é o nome do bailarino, o que já diz muito nesse nomear uma obra com seu próprio nome.

Durante 80 minutos, o bailarino Cedric falou sobre os grandes nomes da dança internacional com quem ele trabalhou nos seus vintes anos profissionalmente, como Merce Cunningham e Trisha Brown. A dramaturgia linear e com muito texto falado causou incômodo e certa chatice nas pessoas, por ser algo ainda pouco habitual para um publico que quer ver dança. Mas isso, em certa medida, foi proposital e quem conseguiu ter calma acabou por descobrir a relevância humana desse falar de si.

Vale lembrar que, em 2007, a sexta edição da bienal cearense foi aberta com outro solo autobiográfico de Jerome Bel, com o nome da bailarina carioca ISABEL TORRES, à convite do Festival Panorama de Dança (RJ).

Outro momento emocionante foi ver Angel Vianna, um grande nome da historia da dança no Brasil, ainda atuante nos seus 83 anos de vida, sendo mais de sessenta dedicados à arte da dança e do movimento. No espetáculo QUALQUER COISA A GENTE MUDA, a bailarina e professora de dança Angel Vianna mostra um experimento de movimento com a bailarina carioca Maria Alice Poppe, emocionando a platéia lotada do Teatro do Dragão do Mar, nesta quarta-feira.

A coreografia é de João Saldanha e seu atelier de coreografia, também coreógrafo do espetáculo NÚCLEOS, dançado no dia anterior e premiado recentemente pela Revista Bravo. Nesta obra, João Saldanha se inspira numa proposta do artista Hélio Oiticica, com o mesmo nome do espetáculo. Os quatro dançarinos apresentam solos de muito movimento e incrível interpretação, junto com uma cena trabalhada em intensidades diferentes de luz. Corpos, movimento e iluminação se revezam ao som de música popular brasileira.

No entanto, a obra perde força cênica ao ter sido apresentada aqui em Fortaleza no formato palco italiano, deixando a platéia distante e apenas na contemplação. Quero dizer, manter o publico pouco próximo não foi uma decisão coerente quando a proposta de Helio Oiticica era enfatizar a liberdade de deslocamento do espectador e, assim, expandir a experiência sensorial, aguçar os sentidos, até mesmo para criar outro tempo de fruição estética, fazer da obra um lugar um ambiente penetrável, corporalmente.

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