A partir de movimentos simples, a coreógrafa Marina Carleial mostra a potência de uma corporeidade dançante em Compartir. O espetáculo encerra temporada hoje no Quinta com Dança, no Teatro Dragão do Mar

O agenciar dançante na obra Compartir, da coreógrafa Marina Carleial, é potente de desejos certeiros e ações em processo. Os gestos são delicados e lembram uma rosa-dos-ventos. Não é mera analogia, mas sim um corpo feito bússola (des)norteando-se pela experiência do deslocamento. O ser nômade que, segundo o filósofo Peter Pál Perbart, evidencia territórios subjetivos onde os vínculos são móveis. Como perceber isso no corpo que dança, sem se deixar “engolir” pela sonoplastia ao vivo presente na obra com a DJ Inge Pessoa e o instrumentista Rodrigo de Oliveira?

A questão não é apenas de uma música para ser dançada, nem somente de uma dança para ser musicada. Pois, no corpo-nômade de Marina, os movimentos são simples e é nessa simplicidade que está a potência de uma corporeidade dançante do ser cearense errante de uma bailarina-criadora. É que os lugares passam a habitar nossos corpos e com eles os agenciamentos acontecem, outras conexões são criadas com o mundo. É confronto, encontro, desencontro, parecenças, distinções, fagulhas. O sensível faz-se movimento como a vida.

Como uma pulsação musical, ou mesmo uma cartografia de gestos, Marina vai transformando as partes do seu corpo em vetores e direções: norte, sul, leste, oeste. É como acontece na lógica de uma rosa-dos-ventos e seus interstícios. São os entres que mostram mapas, apontam deslocamentos e insinuam desvios do corpo na cena por onde navega o olhar do público. E, assim, o corpo dançante passar a ser (e, de fato, é) um acontecimento de acontecimentos. Mas onde tudo isso (nos) (a) escapa, se há beleza no palco, uma sensação de cosmopolitismo?

Em boa parte da apresentação do último dia 1°, a música não permitiu tanto a dança ser dança no e pelo corpo. É necessário, então, levarmos em conta que foi a estréia e, principalmente, admitir que a música desenvolve energias atrativas muitos fortes. Se em Compartir, a dança se deixa obscurecer pela música, definida como “sonoplastia”, onde é que a dança se permite e é permitida ser dança? Indo mais fundo, o que vem a ser “fazer o som” em uma proposta de dança contemporânea? Por que não radicalizar no sentido de uma ambiência sonora, até mesmo apostar numa co-criação que reconfigure, por exemplo, os elementos sonoros nordestinos utilizados na composição ao vivo?

Com apoio da Secretária de Cultura do Estado do Ceará, a temporada finda hoje e, certamente, algumas das questões acima levantadas ganhem outro movimento crítico, já que a obra vislumbra um bom caminho pela frente. Caminho este que Marina vem percorrendo na história recente da dança contemporânea no Ceará, desde o Colégio de Dança (1999-2002); e ainda, com os espetáculos Música para Rosas (2003, em parceria com Janahina Santos) e Limites (2004), ambos também estreados no Projeto Quinta com Dança, merecidamente.

 

Texto originalmente publicado no caderno Vida & Arte, do Jornal O POVO.

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