Texto escrito originalmente para a publicação “Caderno Corpo Exposto v.1″ – setembro 2012 (Curitiba/PR)

FOTO: Patrícia Araújo

Árvores (1) é um desdobramento da foto-performance Saia (2), desenvolvido em parceria com a fotógrafa Patrícia Araujo. A primeira série de fotos que realizamos aconteceu em uma tarde de domingo, quando nós duas percorremos pontos da cidade de São Paulo para realizar a foto-performance de uma mulher de cabeça pra baixo, com uma saia cobrindo o seu corpo, deixando somente as pernas à mostra. Era tudo muito rápido e eficiente, pois não tínhamos autorização pra nada. Além disso, o nosso objetivo era fazer as fotos, utilizar esse recurso cuja natureza é de tudo fixar.

A cidade era entendida quase como moldura dos registros. Mas a cidade é um conjunto que inclui seus habitantes, e, a cada vez que a imagem da mulher de pernas para o ar era criada, ouvíamos ruídos de quem por ali passava, um estranhamento, uma curiosidade, um riso, um não saber. E tudo isso era respondido quando percebiam a máquina fotográfica que ”explicava” o porquê da mulher estar de ponta-cabeça. Como o acontecimento era muito rápido, antes que qualquer maior questionamento fosse elaborado, já tínhamos ido embora.

Foram os rastros deixados pela Saia que me fizeram criar Árvores, trazendo questões próprias da dança e não da fotografia para dentro dessa performance, a fim de esgarçar o potencial entre o corpo e a cidade, que percebi já no primeiro encontro.
Para esse desdobramento, o espaço e o tempo viraram a própria ação performática. Agora várias pessoas ocupavam a cidade e ali permaneciam de cabeça pra baixo até não aguentar mais e caírem, uma a uma.

As primeiras vezes de Árvores ocorreram na Residência Artística Entorno, há dois anos, aqui em São Paulo. Junto aos outros residentes e demais convidados, realizamos a performance dentro do cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, Zona Norte de São Paulo, e em uma ilha urbana, que fica entre as Avenidas Ipiranga e Avenida São Luís, no centro de São Paulo.

Falas da experiência

Para esmiuçar um pouco mais, trago aqui esses dois acontecimentos como exemplo para falar da experiência dos performers e da experiência da cidade.

A experiência no Vila Nova Cachoeirinha foi muito intensa, pois aconteceu no final da tarde, pouco antes do cemitério fechar, quando não havia mais quase ninguém. Nesse caso, a performance, num espaço predominado pelo desejo humano de permanecer, dialogava profundamente com a obra. E também coincidiu com a minha necessidade de lidar com a cidade, com o desejo de permanência e com os limites do corpo. Ao fim, conversamos sobre a experiência dos performers, e ouvir tantas formas diferentes de entender e passar pela experiência me revelou como a potência daquele momento podia ser transformadora tanto para mim, como também para cada um deles.

Dessa forma, percebi a importância de estabelecer uma rotatividade de performers dentro desse trabalho, para que diferentes pessoas possam passar por essa experiência.

Eu me interesso bastante em saber como cada performer resolve essa tarefa de ficar de cabeça pra baixo e como se dá a sua performatividade para garantir a permanência, conhecer as estratégias que cada um desenvolve e compartilhar a luta para não cair, como forma de resistência e posicionamento no mundo.

Mais de oitenta pessoas já passaram por essa experiência. (Vale lembrar que isso também é uma estratégia de sobrevivência do trabalho, uma vez que não possuo uma companhia fixa. Manter um elenco de dez integrantes é complexo. Dentro desse contexto, a rotatividade de elenco também é uma estratégia para que ela aconteça independente da agenda dos performers.)

A segunda performance foi realizada em um espaço que chamo de “ilha urbana”, ou seja, em um equipamento que auxilia os pedestres a atravessar um cruzamento de fluxo intenso. Ela não é habitável e funciona como uma zona de transição entre uma calçada e outra, é um lugar de passagem. Realizar a performance ali fortaleceu o contraste entre o nosso desejo de permanência e a natureza do espaço — sobretudo por ter sido realizado durante um horário de grande fluxo, no final da jornada de trabalho, ali bem próximo à estação de metrô República.

Naquele lugar, o corpo se confrontava diretamente com a cidade e seu fluxo de maneira poética, porém, quase violenta. A proposição de uma temporalidade dilatada em contraste com a urgência que opera dentro da cidade. A plasticidade das imagens, bem como sua fragilidade, a exposição do corpo, e o seu encontro com o outro. E corpo não era um só, eram vários. E vinham aos montes, quando o sinal de pedestre anunciava a luz verde. Esse fluxo intenso fazia com que outra coisa brotasse desse encontro, desse estranhamento, dessa forma que a performance, de certa forma até impositiva, propõe para o uso do equipamento urbano.

Apropriando-se do espaço público

Não tenho a pretensão de dizer que quero ressignificar o espaço urbano, mas me interessa bastante a reação de alguns passantes ao perceberem de súbito a estranha apropriação de um espaço público, como também me interessa a reflexão que é gerada daí. O que está acontecendo no MEU caminho para casa? Esse uso do pronome possessivo me parece muito interessante enquanto reflexão de uma sociedade onde o espaço público é de todos, mas ao mesmo tempo não é de ninguém.

As saias foram todas feitas especialmente para a performance, com motivos diversos, mas predominantemente com cores verdes ou estampas florais, de animais e de frutas. O seu formato em trapézio e suas estampas dão a impressão de estarmos vendo árvores de cabeça para baixo. (Será que as árvores estão de cabeça pra baixo ou é o mundo que está assim?)

Na cidade, o corpo é exposto de forma invertida e o fato dos performers não conseguirem ver nada por baixo da saia torna ainda mais tenso o conflito entre a fragilidade da imagem e o desejo de permanecer. Corpo Monumento. Árvore Estátua No entanto, a pele das pernas à mostra e os movimentos que cada um realiza, a fim de ajustar o corpo para permanecer, tornam vivas as esculturas.

Em Árvores, trago no corpo questões como inversão, potência, resistência e permanência no contexto urbano, pois é no encontro com a cidade que o conflito se estabelece. A circulação dessa performance em diferentes espaços bem como a sua realização em outras cidades permite que a obra seja ressignificada a partir do contato que é estabelecido entre a performance e a cidade e a sua adaptação ao contexto o qual está inserida.

E tenho cada vez mais me interessado por esse conflito que o encontro promove e como ele pode ser um gerador para que algo realmente aconteça na relação da performance e de quem se depara com ela. Dessa mesma forma, a performance não é pensada para ser vista por uma plateia e sim para trabalhar com as questões presentes na relação entre uma obra e a cidade de forma horizontal, onde habitantes e performers estão no mesmo lugar, porém cada um vivendo uma experiência íntima num espaço público.

Pensar um trabalho para a cidade é uma forma de eu aprender a lidar com ela, com toda a sua complexidade, como também com a minha. Acredito que o desejo de encontrar o outro faz com que eu procure novas formas de criar — uma vez que não consigo separar o meu trabalho artístico da minha própria existência.

1. Á performance Árvores foi criada em 2010 e já foi realizada em diversos lugares das cidades de São Paulo e Santo. Através do prêmio FUNARTE de Dança Klauss Vianna foi realizada em Belo Horizonte, Teresina, São Luís e Juazeiro do Norte com os bailarinos locais.

2. O Projeto Saia foi realizado em parceria com a fotógrafa Patrícia Araujo, nas cidades de Fortaleza, Rio de Janeiro e Brasília, através do prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2010 e foi publicado nas Revistas Gudi e +Soma, 2010 além de participar das exposições coletivas 61o Salão de Abril de Fortaleza e A 4o do Equador no Atelier 397 São Paulo. Em 2012 teve sua primeira individual na Galeria Impar em São Paulo.

Clarice Lima é cearense, bailarina e coreógrafa, Bacharel em dança pela Escola de Dança Moderna Amsterdamse Hogeschool voor de Kunsten – AHK, Holanda. Estudou com David Zambrano e trabalhou com os coreógrafos Jan Fabre e Cristian Duarte. Estabelecida em São Paulo, busca parcerias e estratégias criativas para seguir produzindo seus trabalhos, entre eles: Eles Dançam Mal, Árvores e DPI Experimento Espetacular. www.claricelima.org | clarice@claricelima.org
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