(foto: Hudson Wlamir)

Como pensar criticamente sobre o próprio trabalho, após a sua estreia? Que espaços pode encontrar um crítico para falar de um trabalho artístico que já tenha passado por diversas reflexões?

Quando o espetáculo Dark Room, da Cia. Etc., estreou em setembro de 2011, comemorávamos ali, exatos três anos de processo de pesquisa, criação e investigações. Muitas idas e voltas, muitos encantamentos e decepções com as fontes e inspirações que íamos encontrando no caminho, tantos outros processos paralelos, como a comemoração de 10 anos da companhia, remontagem de um espetáculo de 2004, inserção no universo da videodança, com investigações e produções desses vídeos, além de apresentações dos espetáculos anteriores, oficinas, discussões e participação em tantos outros encontros com artistas, pesqusiadores e plateias.

A cada passo que dávamos na construção do corpo, parecia querermos ter ainda mais certezas em relação a que propriedade corporal queríamos instalar nesse novo espetáculo, a partir das teorias que discutiam sexo, gênero e identidade. Dois dos criadores aproveitaram uma especialização em dança para aprofundar elementos específicos da criação, como trabalho final do curso, além de termos chamado diversas pessoas para presenciar ensaios durante o processo, escutando e dialogando com suas impressões, a partir de interferência na própria composição do espetáculo.

Sete meses após a estréia e de 15 apresentações realizadas, Joubert Arrais, crítico e pesquisador, propõe um ensaio aberto e uma discussão sobre o espetáculo. O que esperar desse momento? A minha primeira resposta foi: o que já tínhamos nos proposto enquanto processo, isto é, discutir a obra, a partir do processo e do que foi visto como resultado final.

Mas foi neste exato momento que alguma coisa mudou neste encontro. Ainda não havíamos chamado um crítico de dança para nossos ensaios e laboratórios. Eram artistas, pesquisadores, professores e público geral; mas não críticos, aquele que questiona e testa os limites da obra, como poderíamos entender a partir da origem da palavra crise, do grego “crisis”: limite.

Neste momento é que mais que diretor e bailarino daquele espetáculo, pude perceber um outro viés do papel do crítico: ele pode levar o artista a pensar o limite de sua obra e o limite de seu domínio sobre a obra, fazendo gerar reflexões não apenas a partir do que ele pesquisou, pensou, criou, experimentou, mas a partir do que obra começa a dizer de volta a ele próprio. O momento em que ele pode se permitir dialogar com a obra, escutando o que ela também tem a dizer, além do que pensou já ter dito e pensado. E, talvez, o crítico tenha uma postura e um papel de ser aquele que possamos legitimar a ser alguém que escuta a obra e discute com ela, a partir dela. Não sobre o processo criativo ou sobre os artistas, mas falar da “arte dos artistas”.

E essas reflexões, que coloco agora aqui, surgiram justamente após esse nosso encontro para uma conversa crítica com Dark Room. Eu, que parecia estar confortável e seguro com o que eu acabara de criar, me vi sendo questionado em sutilezas da obra, que eu ainda não havia percebido, por não ter sido discutidas ou por ter considerado de pouca importância para levar adiante aquele pensamento.

A presença também de Roberta Ramos, pesquisadora e professora, mas que também tem estado, em alguns momentos, no lugar de crítica, potencializou ainda mais esse estado de “limite” que estávamos ali discutindo. O limite do consciente, do que dizíamos ou do que queríamos dizer, o limite do óbvio e das entrelinhas: pontos que abriram outros caminhos de continuar pensando a obra e sua potência de discurso e de prática.

Talvez a falta de coragem de muitos profissionais da dança em investir em seu “lado crítico” tenha deixado tantos artistas órfãos de contribuições tão ricas como essa, que mesmo que causem um certo desconforto, nos fazem entender nossa própria obra e nos obrigam a assumir nosso papel de pensadores e fazedores de mundos.

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