Andar é reconhecer. Deixar-se ir a procurar. Fragmentos que se tornaram unidade para, agora, serem fragmentos novamente. Desmontar San Pedro: interferência é olhar para ele e se reconhecer desconhecido, ao mesmo tempo que se desconhece no reconhecido.

Explico: em 2006, no foyer do Teatro Castro Alves, em Salvador, abro o livro Dança em Foco e vejo algumas fotos do vídeo-dança de San Pedro. Apesar da ausência dos nomes dos intérpretes na legenda, muitas coisas vieram à tona, muitas delas, talvez a maioria, fora do que está eternizado no vídeo-dança, no documentário, nas fotos. Coisas que dizem respeito ao entendimento de dança no próprio corpo que dança, que não é mais o corpo que dançou nas filmagens. Aquele corpo agora é outro. San Pedro – poema, vídeo, documentário – agora é outro. Desmontá-lo, então, é assisti-lo novamente e ver no que dá. Foi o que fiz, na madrugada do dia 17 de outubro desse ano, horas antes de encontrar San Pedro nas páginas do livro citado.

E assisti. E percebi San Pedro vivo. Eu no parapeito do prédio. Corpo marcado de arranhões. Céu ensolarado, oposto do céu nublado do dia anterior. O passar de um nível para o outro, sem saber que o céu não era o limite, mas o ponto de partida. Assisti novamente. Depois só ouvi, nada de imagens. Comecei, então, a misturar as referências, os fragmentos. Eu novamente no parapeito do prédio e, de repente, vieram os sons das chaves. Chaves, chaves e mais chaves. Um silêncio. Ao fundo, surge Silvinha cantando “deixe-me ir, preciso andar, vou por aí, a procurar, rir pra não chorar”. E lembro do vestido arrastando nos degraus, misturando-se com a textura do prédio, eu ainda no parapeito. A voz de Silvinha vai sumindo, distanciando-se, e na medida que se distancia, mistura-se com o sons do mar e do vento, até ambos silenciarem.

Do nada, enquanto eu me contorcia no parapeito, sinto a voz de Fátima declamar o poema San Pedro no meu ouvindo, finalizando num sussurro contínuo: musgo, musgo, musgo. E desacelero até parar e me fundir, por instantes, com o prédio. Agora o sussurro é outro: maresia, maresia, maresia. Aí levanto, ando no parapeito como se quissese ir ao encontro do mar. Mais um sussurro: “se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar”.

Mas a voz não era de Silvinha, era outra voz. Parecia a de Lidu. Ou seria de Mariana? Talvez Manoel? Possidônio? Ou Sâmia? Ou mesmo outras vozes, todas juntas,embricadas. E novamente, meio que interrompendo, as chaves. Uma chaves, duas chaves, uma ali ou acolá, todas juntas, pouquinhas, uma caindo, mais outra, e outra, uma ali, outra acolá, tudo de uma vez até sumirem os sons, ao fundo. Por um instante, olho para trás e vejo as gaiolas quebradas. Só por um instante. E paro de andar, sento no muro do parapeito e fico quieto. Só os pés se movimentam, lentamente, serenos, contemplativos. Não há mais nada a fazer.

Desmontar San Pedro não é algo fácil. Desmontar um processo, na verdade, é impossível. Ou melhor, só é possível quando na intenção de desmontar monta-se outro, e outro, e outro. Obra como um organismo vivo com infinitas possibilidades de novas configurações. Das ruínas do prédio San Pedro, as marcas permanecem em novas relações. Um reconhecer desconhecido, um desconhecer no reconhecido. Um ir e voltar. Um voltar e ir. Só ir. Enfim, um continuum. E tem gente que ainda acha que a dança é uma arte efêmera, de natureza efêmera; que insiste na dança como a linguagem do indizível. Oras, não mesmo.

 

O texto acima foi enviado para a proposta de desmontagem do projeto de vídeo-dança e vídeo-doc Interferência: San Pedro, que aconteceu em outubro de 2006 em Fortaleza. Este projeto foi apresentado ao Núcleo de Dança do Alpendre, sendo realizado no ano de 2005, com apoio do Edital de Incentivo às Artes da Secult/CE. Foi proposto por Fátima Souza, a partir do poema San Pedro, de Eduardo Jorge, com coreografia de Andréa Bardawil e vídeo de Alexandre Veras. O projeto também resultou em uma publicação com textos dos participantes, inclusive dos bailarinos-pesquisadores, citados no texto acima.

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