Mouraria, um dos chamados “bairros velhos” de Lisboa. Um dos que sobreviveram ao histórico terremoto de 01 de novembro de 1755, ironicamente, o dia de Todos os Santos, que corresponde ao dia de Finados no Brasil, mas um dia depois (02 de novembro).

Por lá, vi e vivi muitas janelas de vidros, varandas com jarros de flores. Azulejos que ladrilham paredes marcadas pelo tempo. Nos dias que fiquei, ficamos, por lá, tentei exercitar o recordar e o reconhecer. As trilhas da vida como becos, escadas e escadinhas. Passagens secretas que escondem segredos coletivos. Sinos que (re)tocam a infância pulsante de uma criança que permanece em mim e nos outros. Chuva que ensopa as camadas de pele e altera os ditos estados corporais.

Ou seja, subir que é descer, descer que é subir, parar que é prosseguir, guiar que é ser guiado, chorar que é sorrir, observar que é deixar-se observar, caminhar que é passear, entrar que é sair, sair que é entrar, olhar que é a abrir brechas e fendas. Seguimos uma rota pré-definida. Isso é, de algum modo, entregar-se a uma errância sem fim.(Traduzo-me: fazer a mesma rota todos os dias foi, é, permear o espaço-tempo, o aparente igual que se revela de muitos e diferentes modos.)

O incrível é perceber como determinadas sensações permanecem como memória corporal viva. Viva!!!! Como o vivido é tão ficcional quanto o não vivido ainda. Viva!!! Saudades daquilo que não vivi ou que já vivi. Viva!!! Ou ainda aquilo que já vivi não a partir de mim, mas a partir do outro. Viva!!!! O outro que é gente, que é coisa, que é sino…Vivo?!

Confesso. Alguns dias foram bons, outros não tanto. Faz parte. Penso que sim. Mas sem o determinismo dualista que impera. Refiro-me que os dias bons foram de fruição e pertencimento. Os dias ruins foram de insistência e tolerância com o confronto-encontro (ou seria encontro-confronto?).

Enfim, o bom é saber que, por onde passamos, habitamos lugares e os lugares passam a nos habitar. Assim como as pessoas dos lugares que habitamos e estas passam a nos habitar. Diante de tudo isso, com bons e maus momentos, eu digo: EU MOURARIA LÁ!

PS: “Digo para ver!” (Sophia de Mello Breyner Andresen). Verso completo logo abaixo.

LISBOA

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen

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