Uma relação pulsante com a chamada cultura popular, sem negar sua contemporaneidade. Sagrado, profano, lúdico, poético, ritual. Palavras-chave do percurso da Cia. Balé Baião de Dança Contemporânea, de Itapipoca, que faz última apresentação do espetáculo Sólidos, hoje, 29 de maio, às 20 horas, pelo Projeto Quinta com Dança de maio. Neste trabalho, o mais recente, há algo que se sobressai, pois representa a fase madura da companhia cearense (antes, “Ballet Baião”) e do coreógrafo-diretor Gerson Moreno (ex-Colégio de Dança). As metáforas do corpo vão além da simples analogia figurativa e se organizam, cênica e artisticamente, como um ato estético e político do fazer dança, também fora do palco, no interior do Estado.

A saber, Sólidos é um espetáculo de contato-improvisação. Trata-se de uma técnica corporal vinculada historicamente à dança moderna dos anos 70 e que tem o coreógrafo norte-americano Steven Paxton como grande expoente. A gênese veio de uma ação política com jovens bailarinos do Oberlin College, em Ohio, que questionavam radicalmente o autoritarismo e as guerras na época. Fora dos EUA, desde os anos 80, Cristina Turdo (Argentina) e Tica Lemos (Brasil) destacam-se como importantes difusoras na América Latina, com muitos outros adeptos que, não todos, vêm re-elaborando esta técnica, a partir de experiências artísticas, práticas educativas e intercâmbios culturais.

Gerson Moreno parece ser um deles, quando tem o movimento improvisado como base criativa e estética da “sua” companhia. No trabalho que encerra temporada no teatro do Centro Dragão do Mar, eles propõem um diálogo físico e estudo cênico através da troca de peso, do contato-toque, da condução e das quedas/suspensões. Lidam com a inércia, o momento-presente, o desequilíbrio e o inesperado. O que possibilita uma profunda percepção-ação de si mesmo e do(s) outro(s). Inclusive do público, e não só dos corpos-mentes dos “intérpretes-criadores”: Cacheado Braga, Edileusa Inácio, Glaciel Farias, Gustavo Rodrigo, Roniele de Souza, Vaneila Ramos, Viana Júnior e o próprio Gerson.

Há algo, porém, que não é tão explicitamente assumido nas discussões da companhia sobre identidade e sincretismo. Refiro-me à mestiçagem cultural – ou “pensamento mestiço”, como defende o historiador Serge Gruzinski –, que se sucede nos confrontos históricos entre culturas, no sentido de encontros entre singularidades. Nessa perspectiva, ampliam-se as imagens metafóricas presentes na dramaturgia da cena e dos corpos como resultantes de vivências cotidianas em constante atualização, e não ilustração-decalque ou mistura globalizada. Lembremos. “Itapipoca” tem origem tupi (significa “pedra arrebentada”, “rocha estourada”), foi uma sesmaria portuguesa e é bem conhecida como “a cidade dos três climas” (serra, sertão, mar).

Tudo isso não é mero debut, esclareço. Sólidos é a celebração de quinze anos de uma atuação comprometida com a realidade local. São, na verdade, Bodas de Cristal: Pátria Sertaneja, Etnia, Carne Benta, Rebento, Intimidades, Finitude. Eis uma (talvez, a) resistência transformadora da Região do Vale do Curu. Tem feito muito, também no campo da arte-educação, mas ainda há muito o que contribuir, certamente. Para a (nossa) breve e rica história da dança no Ceará, Nordeste, Brasil. Fiquemos mais atentos.

SERVIÇO

SÓLIDOS. Última apresentação da Cia. Balé Baião (Itapipoca), de Gerson Moreno, encerrando o projeto Quinta com Dança de maio. Duração: 45min. Classificação livre. Excepcionalmente hoje (29), às 20h, no Teatro do Centro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema). Ingressos: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Outras informações: 3488 8600.

 

Texto originalmente publicado no caderno cultural Vida & Arte, do Jornal O POVO (CE), no dia 29 de maio de 2009.

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